Dom Casmurro era gay?

Não, você não leu errado. Não é a primeira vez que escrevo sobre esse tema. Se Dom Casmurro era gay ou não, não é uma discussão muito difundida nas aulas de Literatura. Parece que a traição de Capitu é mais evidente do que a homossexualidade, ou algo próximo disso, que pode ser vista em Bentinho, o Dom Casmurro.


Por que você acha que Dom Casmurro era gay?

Primeiramente, essa teoria não é minha. Estou repassando um comentário feito por Millôr Fernandes há mais de dez anos, no artigo O “outro lado” de Dom Casmurro. Quero ressaltar que não pretendo emitir nenhum discurso de ódio nem qualquer tipo de preconceito. Apenas estou apresentando uma discussão da qual quase não ouço falar. Há sutis diferenças entre os trechos que ele cita em seu artigo e os que eu cito aqui. Tomo como texto base aquele disponível no Domínio Público, as páginas citadas são daquela versão. Chega de enrolação e vamos ao texto.

Informações importantes

As passagens aqui relatadas estão deslocadas de seus contextos, mas há a indicação da página da versão citada. Caso julgue que estou forçando demais a barra, basta baixar o PDF e conferir com seus próprios olhos. Vamos, então, sem mais delongas.

CAPÍTULO LVI: UM SEMINARISTA

(p. 46)

“Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo.”

“Eu, seduzido pelas palavras dele, estive quase a contar-lhe logo, logo, a minha história. A princípio, fui tímido, mas ele fez-se entrado na “minha confiança.”

“Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro.”

“Eu não era ainda casmurro, nem dom casmurro; o receio é que me tolhia a franqueza, mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que… ”

CAPÍTULO LXV: A DISSIMULAÇÃO

(p. 52)

“Ia alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os rapazes e os padres.”

CAPÍTULO LXXI: VISITA DE ESCOBAR

(p. 57)

“Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui levá-lo à porta, onde esperamos a passagem de um ônibus. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores, e ficava aberto até às nove horas: ele é que se não queria demorar fora. Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.”

Capitu, percebendo a troca de olhares, solta um: “-Que amigo é esse tamanho?”

“Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que me merecia tanto.”

CAPÍTULO LXXVIII: SEGREDO POR SEGREDO

(p. 60)

“-Escobar, você é meu amigo, eu sou seu amigo também; aqui ao seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração, e lá fora, a não ser a gente da família, não tenho propriamente um amigo.
-Se eu disser a mesma cousa, retorquiu ele sorrindo, perde a graça; parece que estou repetindo. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém, você é o primeiro e creio que já notaram, mas eu não me importo com isso.”

CAPÍTULO XCIV: IDÉIAS ARITMÉTICAS

(p. 71)

“Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo, que não pude deixar de abraçá-lo. Era no pátio; outros seminaristas notaram a nossa efusão; um padre que estava com eles não gostou.”

CAPÍTULO CVII: CIÚMES DO MAR

(p. 81)

“Escobar também se me fez mais pegado ao coração. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas, e as nossas conversações mais íntimas.”

Para encerrar (ou não)

Há muitas outras passagens citadas por Millôr, mas preferi não repeti-las aqui por terem duplo sentido, isto é, podem não necessariamente indicar que o Dom Casmurro era gay realmente. Muitos trechos podem cair na conta da descrição e estilo característico de Machado de Assis.


CAPÍTULO XXXIV: SOU HOMEM!

(p. 28)

“-Sou homem!”

Exagero ou há mais em Dom Casmurro do que desconfia nossa vã filosofia?

2 thoughts to “Dom Casmurro era gay?”

  1. Penso se tratar de uma tolice essa conjectura sobre a suposta homossexualidade de Bentinho.
    Como a conjectura não passa da pessoa do perspnagem, não enxergo maiores conseqüências, no desfecho da obra, quanto âs manifestações de afeto pelo amigo Escobar, até então declarados por Bentinho.
    O que realmente importa é a genialidade e universalidade da escrita literária do grande bardo brasileiro, o provecto Bruxo do Cosme Velho.

    1. Uma possível explicação seria a linguagem utilizada por Machado, mas eu não acredito que ele fosse gay. Achei interessante a proposta do Millôr, por isso estou apresentando essas passagens. Mas se Bentinho fosse realmente gay, isso não iria diminuir a genialidade de Machado.
      Muito obrigado pelo comentário.

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