Norma Culta ou Norma-padrão?

Muitos professores de Português dizem que a Norma Culta é a maneira correta de falar e escrever. Esse conjunto de regras seguiria padrões linguísticos tidos corretos e utilizado pelos falantes com alto nível de escolaridade. Mas antes de dizer se isso está correto ou não, precisamos definir o que é Norma e por quais motivos ela pode ser chamada de Culta. Haveria uma Norma Não Culta?

Por que Norma Culta?

Há quem considera a fala e a escrita de pessoas mais escolarizadas como ideais. Ideal no sentido de ser o correto, isso é um erro crasso!

O que é Norma?

Norma é algo acordado como uma regra, um regulamento, ou lei. Podemos dizer que essa ou aquela prática é a forma normal de se fazer alguma coisa. Não há juízo de valor nisso. Não podemos considerar que algo normal seja necessariamente bom, apenas quer dizer que isso ocorre naturalmente num determinado grupo.

Pensando em linguística, chama-se Norma o conjunto de regras que determinam o uso de uma língua. Há duas normas, basicamente: a padrão e a não padrão. Essas duas normas não têm relação com a escolaridade do usuário. Um falante culto pode perfeitamente utilizar a norma não padrão e um falante não culto pode ter domínio da norma-padrão.

O que é ser Culto?

Para podermos classificar um falante como culto, devemos atentar para alguns fatores: Nível de escolaridade, Local de nascimento e que reside, Renda, etc. Não há um só critério a ser atendido. Tomar apenas um desses critérios é o mesmo que dizer que um Tiranossauro Rex é um pássaro por botar ovos.

O Projeto NURC-RJ (Projeto da Norma Urbana Oral Culta do Rio de Janeiro) é referência nacional para estudos da variante culta da língua portuguesa e está disponível on-line. Esse projeto conta com entrevistas gravadas entre os anos de 1970 e 1990, totalizando 350 horas, com informantes que atendem aos seguintes critérios: Nível superior completo; Nascidos no Rio de Janeiro e filhos de pais preferencialmente cariocas. O Projeto NURC tem núcleos em cinco capitais: Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

O que é Norma-padrão?

É exatamente o que se espera da variante da língua portuguesa tanto defendida por gramáticos e alguns linguistas. Tratar a norma-padrão como culta é, na verdade, uma utopia, já que falantes cultos não necessariamente dominam essa norma culta. O que é ensinado nas escolas é a norma-padrão.

Um médico formado numa universidade de renome pode dizer perfeitamente “us mininu”, mas para se fazer entender em todos os países lusófonos, ele deve escrever “os meninos”. Falar “us mininu” e escrever “os meninos” torna a pessoa menos culta? A primeira forma só será dita ou escrita em contextos muito específicos, assim como a segunda forma, que será utilizada em situações que exigem o uso padronizado da língua portuguesa.

Deve-se ensinar Norma Culta ou Norma-padrão?

Sim! Deve-se ensinar norma-padrão nas escolas, do mesmo modo que deve ser ensinado Biologia, Matemática, Geografia, etc. Mas como isso é feito? Atualmente, espera-se que o professor de português passe cinco folhas de regras gramaticais, três folhas de exceções para cada regra, mais 15 folhas de exercícios contendo frases do século XIX. Quando um professor apresenta outras forma de utilizar a língua, muitos pais e outros profissionais da educação condenam essa atitude.

Não há renovação de conceitos e teorias sobre a linguagem nas escola. Muito do que é estudado na faculdade fica restrito ao universo acadêmico. Muito pouca coisa chega à sala de aula. A seguir, trago a análise do professor Mario Perini sobre o ensino de gramática nas escolas.

“Não é assim que se estuda biologia. Você faz experiências para validar a teoria. Assim, pode descobrir que um postulado está errado. Quando se trata da gramática, ao contrário, aquilo é verdade, e ponto final. Quem está errado é o mundo”, entrevista publicada no site da UFMG.

Nunca mais diga Norma Culta ao se referir à Norma-padrão.


Deixe uma resposta