Como Nossos Pais – Comentários

Primeiro preciso informar que nasci em 1985, no ano em que a democracia voltava tímida ao cenário político brasileiro; minha infância foi durante a década de 90 e minhas memórias começaram mesmo do início dos anos 2000. O que escrevo aqui é baseado nas minhas interpretações a respeito de uma época muito conturbada e muito importante para o país. Nosso poema foi escrito em meados de 60 e 70. Como Nossos Pais foi escrita por Belchior e trata das muitas decepções ao longo da ditadura militar, sendo 1976 o ano de sua composição.

Percebemos que tempo, juventude, maturidade, impotência, ilusão, decepção, otimismo e pessimismo concorrem como protagonistas dessa triste história. Mas vamos então ao poema, enumeramos, para melhor referência, e vamos tentar falar dessa obra importantíssima do cancioneiro brasileiro.

Versos iniciais

Nos 6 primeiros versos, a introdução da música afirma não se tratar de histórias, mas, sim, de fatos que realmente aconteceram. Esta introdução serve para dar maior verossimilhança ao que se pretende. Diferente de “verídico”, o “verossímil” pode não ter acontecido, mas tem profunda relação com a possível realidade. Poderíamos pensar que está sendo feita alguma alusão aos audiolivros, ao contrário, a figura do disco aparece como algo que era manipulado pelas gravadoras, isto é, uma história aprendida em discos seria o mesmo que uma história viciada, manipulada, falsa. Os anos 60 e 70 foram marcados por violência política, luta armada e terrorismo de esquerda e de direita, endurecimento do aparato repressivo estatal, não só na América Latina, como no mundo todo como consequências de um pós-guerra muito conturbado e revoltas “populares”.

O Brasil consegue a posição de 9ª economia mundial, ainda impulsionado pelo “milagre econômico”, mas os efeitos da primeira crise do petróleo, esgotamento das reservas cambiais e sucessivos empréstimos internacionais para equilibrar a balança comercial não puderam evitar o declínio do Milagre Econômico.

Na meiuca

Dos versos de 7 a 13 temos frases que podem parecer confusas, mas vejam: “Viver é melhor que sonhar”, isso chama a atenção para o fato de a população pretender, já naquela época, ter uma vida melhor. Sonhavam com algo melhor, mas o verso 7 já diz perfeitamente quanto a essa questão. O amor é bom, ter família, amigos, mas a vida de alguém é muito maior que qualquer música, “qualquer canto”, pois a morte é anunciada na estrofe seguinte quando se diz “há perigo na esquina”. Fica a dúvida se o que consta no verso 11 se refere a canto, de cantar, ou canto, de esquina, ou, quem sabe, canto, de moradia.

Quem venceu e fechou o sinal? Se o censor tivesse conhecimento do futuro e tivesse as aulas de História do Brasil nos anos 2000, com certeza teria retirado esse trecho em que fica clara a referência à Ditadura Militar instaurada em 1964, ditadura essa que perseguiu estudantes e professores universitários, políticos e jornalistas, sob pretexto de livrar o Brasil do Comunismo.

A juventude brasileira respirava novos ares de liberdade e estava “como uma nova invenção”, mas, assim como os poetas árcades queriam ir para o campo, essa juventude pretendia ficar na cidade (principalmente Rio de Janeiro e São Paulo) e lutar. Pode haver alguma referência ao movimento revolucionário surgindo no sertão do país, percorrendo a parte Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, a Guerrilha do Araguaia, liderada pelo PCdoB (Partido Comunista do Brasil).

A decadência

Nos versos de 33 a 34 vemos um presente muito ruim e um passado saudosista que não parece ter como voltar, o trauma causado na juventude foi tão grande que já não há jovens reunidos na rua. Mas o que mais angustia nosso narrador é o fato de saber que lutou-se, matou-se, “morreu-se”, roubou-se, sequestrou-se, tudo por uma sociedade mais justa, e o que mudou? Do verso 40 até o 47 há um grito de revolta e angústia por saber que tudo foi em vão e está como era; porém “É você/ Que ama o passado/ E que não vê/ Que o novo sempre vem” (versos 61 a 64) e isso quer dizer que a mudança acontecerá quer queira ou não.

Entre os versos 65 e 71, fica claro que alguns idealizadores das revoltas foram comprados, não com 20 centavos, e “Deus” é o Governo que tudo manda, tudo sabe e está em todo lugar. De 72 a 82 não é mais um grito de raiva por impotência, agora é um dedo na cara dos que um dia se venderam “pelo vil metal”. Poderia ser essa mais uma das centenas de músicas censuradas se não fosse muito bem maquiada e não ferisse diretamente o regime.

Sei que esta leitura pode ter sido cansativa, “Como Nossos Pais” é muito carregada de simbolismos e um retrato do passado recente do Brasil, confira aqui a célebre interpretação de Elis Regina para o Fantástico.

 

Como Nossos Pais – Belchior 

1 Não quero lhe falar
2 Meu grande amor
3 De coisas que aprendi
4 Nos discos
5 Quero lhe contar como eu vivi
6 E tudo o que aconteceu comigo

7 Viver é melhor que sonhar
8 Eu sei que o amor
9 É uma coisa boa
10 Mas também sei
11 Que qualquer canto
12 É menor do que a vida
13 De qualquer pessoa

14 Por isso cuidado, meu bem
15 Há perigo na esquina
16 Eles venceram e o sinal
17 Está fechado pra nós
18 Que somos jovens

19 Para abraçar seu irmão
20 E beijar sua menina na rua
21 É que se fez o seu braço
22 O seu lábio e a sua voz
23 Você me pergunta
24 Pela minha paixão
25 Digo que estou encantada
26 Como uma nova invenção
27 Eu vou ficar nesta cidade
28 Não vou voltar pro sertão
29 Pois vejo vir vindo no vento
30 Cheiro de nova estação
31 Eu sinto tudo na ferida viva
32 Do meu coração

33 Já faz tempo
34 Eu vi você na rua
35 Cabelo ao vento
36 Gente jovem reunida
37 Na parede da memória
38 Essa lembrança
39 É o quadro que dói mais

40 Minha dor é perceber
41 Que apesar de termos
42 Feito tudo o que fizemos
43 Ainda somos os mesmos
44 E vivemos
45 Ainda somos os mesmos
46 E vivemos
47 Como os nossos pais

48 Nossos ídolos
49 Ainda são os mesmos
50 E as aparências
51 Não enganam não
52 Você diz que depois deles
53 Não apareceu mais ninguém
54 Você pode até dizer
55 Que eu tô por fora
56 Ou então
57 Que eu tô inventando

58 Mas é você
59 Que ama o passado
60 E que não vê
61 É você
62 Que ama o passado
63 E que não vê
64 Que o novo sempre vem

65 Hoje eu sei
66 Que quem me deu a ideia
67 De uma nova consciência
68 E juventude
69 Tá em casa
70 Guardado por Deus
71 Contando o vil metal

72 Minha dor é perceber
73 Que apesar de termos
74 Feito tudo, tudo
75 Tudo o que fizemos
76 Nós ainda somos
77 Os mesmos e vivemos
78 Ainda somos
79 Os mesmos e vivemos
80 Ainda somos
81 Os mesmos e vivemos
82 Como os nossos pais

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