Fonema

Dando continuidade ao assunto abordado no post anterior sobre Fonética e Fonologia, neste artigo serão tratados alguns pontos importantes sobre o que se entende por Fonema. Há duas abordagens que podem ser feitas a respeito da emissão de sons feita pelos seres humanos. Uma abordagem pode ser feita analisando-se os componentes orgânicos envolvidos no processo. A outra, que é o foco deste artigo, trata da descrição desses sons.

Fonema: O Som da fala

Como dito anteriormente, há uma série de órgãos do corpo humano envolvidos no processo da fala. Os órgãos citados são: nariz (fossas nasais) e boca; faringe, laringe e traqueia; pulmões e diafragma. As partes do corpo que estão diretamente ligados à produção de sons utilizados na fala são: boca, fossas nasais e laringe.



A boca é responsável pela maior parte dos fones emitidos. A língua, os dentes, os lábios e o palato (o palato duro, céu da boca, e o palato mole, véu palatino) são os responsáveis pelas modulações da coluna de ar proveniente dos pulmões. A articulação desses componentes interfere no tipo de fone emitido, seja ele uma vogal ou uma consoante. As vogais são produzidas na laringe, local que se encontram as cordas vocais.

Fonema: Classificação

Os estudos linguísticos concentram-se nos sons que distinguem uma palavra da outra, como em: bola – cola, faca – vaca, dado – tato – caco, etc. Esse som diferenciador é chamado de Fonema. Na palavra “tia”, seja na pronúncia carioca “tchia”, ou na gaúcha “tia”, o fonema é o mesmo /t/. Dizer “leite” ou “leitchi” não faz com que haja dúvidas de se tratar da palavra “leite”. A seguir, são apresentadas as classificações formais dos fonemas.

1. Vogais

As vogais são fonemas sonoros produzidos pelo escapamento do ar pela boca sem nenhum tipo de interrupção da corrente de ar e se distinguem entre si por seu timbre característico. A ressonância pode ser feita na boca ou também nas fossas nasais. As vogais podem ser agrupadas em quatro categorias:

Veja também:
Fonética e fonologia do Português
Gramática
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a) Quanto à zona de articulação: anteriores, média e posteriores.

Partindo da mais anterior para a mais posterior, naturalmente passando pela média, temos a seguinte sequência:

/i/                         /u/

    /e/                 /o/

   /ɛ/          /ɔ/

/a/

A mais anterior é /i/, a média (ou central) é o /a/ e a mais posterior é o /u/. O arredondamento dos lábios não é característico das vogais em português como visto no francês (“dessus” =acima, pronunciado “dêssî” com os lábios arredondados como na pronúncia do “u”.

b) Quanto ao timbre: abertas, fechadas.

A abertura aqui aludida se refere à posição da boca no momento da execução do fonema em questão. O fonema /a/ é o mais aberto de todos, /i/ e /u/ são os mais fechados; /ɛ/ e /ɔ/ são mais abertos do que /e/ e /o/. Normalmente a abertura do timbre das vogais numa palavra ocorre quando esta é flexionada, c[o]rpo e c[ɔ]rpos.

c) Quanto à ressonância nas cavidades bucal ou nasal: orais, nasais.

A língua portuguesa tem sete fonemas orais — /a/, /ɛ/, /e/, /i/, /ɔ/, /o/, /u/ —, e cinco fonemas nasais — /ɐ̃/, /ẽ/, /ĩ/, /õ/, /ũ/.

Podemos, assim, produzir duas listas para demonstrar escrita das vogais apresentadas:

Vogais Orais: casa, teto, cebola, igreja, cova, ovo, urubu.

Vogais Nasais: também, templo, indigente, pronto, unha.

Obs.: Sempre que as letras “m” e “n” estiverem após uma vogal, esta tende a anasalar. A palavra “muito” parece ser o único caso que foge a essa regra.

d) Quanto à intensidade: tônicas, átonas.

A tonicidade da sílaba depende da intensidade e do destaque que se dá à mesma numa palavra. Todas as vogais orais (/a/, /ɛ/, /e/, /i/, /ɔ/, /o/, /u/) podem aparecer nas sílabas tônicas, por exemplo:

sustentava [sustẽ̞ˈtavɐ], estrela [ʃˈtɾelɐ], perto [ˈpɛχtu], fortes [ˈfɔχtʃiʃ], porco [ˈpoχko], Cuba [‘kubɐ]

As vogais átonas tendem a inviabilizar a distinção entre as vogais abertas e as vogais fechadas, prevalecendo estas últimas (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/), por exemplo:

cachorro [kɐ’ʃoχu], cerveja [seɣ‘veʒɐ], cigarro [si’gaχu], orelha [o’reʎɐ], urubu [uru’bu]

Observação: Quando a vogal estiver na última sílaba, geralmente, a quantidade de vogais cai para apenas três: /a/, /i/ e /u/, como nos exemplos abaixo:

casa [‘kazɐ], poste [‘pɔtʃi], gosto [‘goʃtu]



2. Consoantes

Se não há obstrução da coluna de ar na emissão das vogais, a produção de qualquer consoante depende de alguma obstrução, ainda que sutil, da coluna de ar. Assim, podemos classificar as consoantes em quatro grandes grupos:

a) Quanto ao tipo de obstáculo oposto à corrente de ar:

oclusivas, fricativas, laterais e vibrantes

b) Quanto à zona de articulação:

bilabiais, labiodentais, linguodentais, alveolares, palatais e velares

c) Quanto à ação das cordas vocais:

surdas e sonoras

d) Quanto à ressonância nas cavidades bucal ou nasal:

orais e nasais

Quadro geral das Consoantes

Consoantes
Oclusivas
Símbolo Palavra Transcrição
p padre [‘padri]
b barco [‘baχku]
t tenho [‘tẽjɲu]
d doce [‘dosi]
k cor [koh]
g grande [‘grãdi]
Fricativas
f faço [‘fasu]
v verso [‘vɛχsu]
s céu [sɛw]
z casa [‘kazɐ]
ʃ chapéu ɐ’pɛw]
ʒ joia [‘ʒɔjɐ]
Nasais
m mar [maχ]
n nada [‘nadɐ]
ɲ vinho [‘vĩɲu]
Líquidas
l lanche [‘lãʃi]
ʎ trabalho [trɐ‘baʎu]
r caro [‘karu]
h rua [‘huɐ]



Fonema x Letras

1. Oclusiva velar surda /k/
c (antes de a, o, u): casa, cola, acuso
k (em nomes próprios de pessoas ou de lugares, originários de língua estrangeira, assim como em seus derivados): Kant, kantismo
qu (antes de e, i): quero, aqui
q (antes de u semivogal): quase.

2. Oclusiva velar sonora /g/
g (antes de a, o, u): gato, agora, gume
gu (antes de e, i): guerra, águia
g (antes de u semivogal): sagui

3. Fricativa labiodental sonora /v/
v: vela
w (em nomes próprios de pessoas ou de lugares, originários de língua estrangeira, assim como em seus derivados): Wagner, wagneriano

4. Fricativa alveolar surda /s/
s: sala, sino, valsa
ss (entre vogais): nosso, missal
c (antes de e e i): céu, cego, macio
ç (antes de a, o, u): poça, maço, beiçudo
x : máximo, sintaxe, próximo

5. Fricativa alveolar sonora /z/
z: zagal, zebra, azar, vizinho
s: asa, casebre, vasilha, usual
x: exame, exemplo, exímio

6. Fricativa palatal surda /ʃ/
x : xarope, peixe, lixo
ch: chave, flecha, piche

7. A fricativa palatal sonora /ʒ/
j: já, jeito, hoje, jiló
g (antes de e, i): gente, gíria

8. Vibrante velar sonora (forte) /h/
r: rosto, corça, genro, falar
rr (entre vogais): erro, terra

3. Semivogais

Somente as vogais “i” e “u” podem ser consideradas semivogais, compondo os ditongos ai, ei, oi, ui, au, eu, iu e ou. Este assunto será melhor abordado mais abaixo, na parte “Hiato, Ditongo, Tritongo e Encontros instáveis”.

Sílaba e sua estrutura

Uma sílaba pode ser formada com V, VSv, VSvC, VCC, CV, CVSv, CCV, CVCC, etc. Sempre deve haver pelo menos uma vogal para que determinado grupo de letras seja entendido como sílaba.

Ordinariamente os vocábulos portugueses possuem de uma a sete sílabas. São raros os que têm oito ou mais, e mesmo os de sete já não se encontram com muita frequência. A gramática consagrou a seguinte nomenclatura:
a) Monossílabo: Vocábulo de uma sílaba;
b) Dissílabo: Vocábulo de duas sílabas;
c) Trissílabo: Vocábulo de três sílabas;
d) Polissílabo: Vocábulo de mais de três sílabas.

Hiato, Ditongo, Tritongo e Encontros instáveis

Dos encontros vocálicos possíveis, há aqueles que ocorrem em sílabas diferentes, ou seja, duas vogais estão próximas sem a interpolação de uma consoante ou de uma semivogal. Esse tipo de encontro vocálico é denominado Hiato, exemplos: graal, reeleger, niilista, cooperar, aéreo, baeta, aorta, caolho, beato, oboé, beócio, feérico, coorte, etc.

Havendo encontro vocálico na mesma sílaba, passa a ser denominado Ditongo, quando há uma vogal e uma semivogal, ou Tritongo, quando há uma vogal e duas semivogais. Exemplos de Ditongos: quase, qualidade, quota, equestre, oblíqua, igual, água, herói, assembleia, Coreia, etc. Exemplos de Tritongos: quais, averiguei, delinquiu, Paraguai, etc.

Mas nem tudo são flores, há encontros que podem ser classificados como Hiato ou Ditongo, dependendo do falante. Exemplos de casos especiais:

1) Os encontros ia, ie, io, ua, ue, uo (átonos e finais de vocábulo):

ausência, série, pátio, árdua, tênue, vácuo.

2) Os encontros de i ou u (átonos) com a vogal seguinte (tônica, ou átona):

piaga, fiel, prior, muar, suor; crueldade, violento, persuadir.

Encontro consonantal

Não há apenas encontros vocálicos nas palavras, muitas palavras apresentam duas ou mais consoantes. Esse encontro pode ser na mesma sílaba ou em sílabas consecutivas.

a) Na mesma sílaba:

Os do primeiro tipo, inseparáveis, são habitualmente denominados grupos consonantais, e têm quase sempre como segunda consoante “l” ou “r”, mas também pode ocorrer com “pn” e “gn”.

Exemplos:
bl — bloco, bíblia
br — brisa, abrir
cl — clima, tecla
cr — cravo, lacrar
fl — flores, aflição
fr — fraco, sofrer
gl — glória, inglês
gr — grande, negro
pn — pneumático
gn — gnomo

b) Em sílabas consecutivas:

Quando uma consoante está localizada no final da sílaba (coda silábico) e imediatamente é sucedida por consoante, também se considera encontro consonantal.

Exemplos:

b/s — absoluto
d/v — advertir
c/c — convicção
f/t — afta
c/t — aspecto
t/m — ritmo

Separação de sílabas

Há casos em que não é possível escrever a palavra até o final da margem. Quando isso ocorrer, deve-se escrever a sílaba inteira numa linha e, na seguinte, escreve-se o restante da palavra, conforme mostrado a seguir.

“Olá, povo! A partir de hoje, quem quiser tirar dúvidas sobre Gramá-
tica vai ter ajuda. Sou formado em Letras pela UFRJ, com mestrado
em Letras Vernáculas.”

CUIDADO!!!!!

1 ) O “ch” (chave, machado), o “Ih” (palha, milharal), o “nh” (ninho, banheiro), o “rr” (carro), o “ss” (passo), bem como o qu e o gu (em palavras, como, respectivamente, querer e guerra) NÃO são grupos consonantais, nem encontros disjuntos. São Dígrafos, isto é, reuniões de duas letras para a transcrição de um fonema.

2) O “m” e o “n” pós-vocálicos não formam encontro disjunto com a consoante seguinte, pois não são consoantes e sim meros sinais diacríticos de nasalização (valem tanto quanto o til): cam-po, son-so.

3) Certas combinações podem determinar a formação de grupos consonantais, ou de encontros disjuntos. É o caso, por exemplo, de bl: é grupo em ablativo (a-bla-ti-vo), e encontro disjunto em sublinhar (sub-li-nhar).

4) Na pronúncia-padrão, é mudo o /s/ — embora se escreva — em palavras com sc (pis-cina, des-cer), sç (cres-çam, flo-res-çam) e xc (ex-ce-ção, ex-ce-len-te).



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