PREFIXOS

A prefixação é um dos processos de criação de novas palavras bastante fácil. Os prefixos são morfemas que agregam significado sem alterar drasticamente o sentido da base, mas há casos que essa premissa não ocorre em todos os casos. Em “exceder”, “preceder” e “proceder”, não temos tão nítida a ideia de ceder, tampouco se percebe a derivação por meio dos prefixos “ex-“, “pre-” e “pro-“. Neste artigo vamos tratar de um tipo de Derivação bastante produtivo, a Prefixação.

Prefixos: Quais são e de onde vieram?

Os prefixos utilizados em língua portuguesa são oriundos de duas línguas mortas: latim e grego. Ainda que haja falantes de grego atualmente, o grego do século XXI falado na atual Grécia não é o mesmo que cedeu prefixos e radicais para a composição do Português.

CORRESPONDÊNCIA DE PREFIXOS GREGOS E LATINOS

GREGOSLATINOS
A, AN (acéfalo, anônimo) DES, IN (desleal, incapaz)
AMPHÍ (anfíbio, anfiteatro) AMBI (ambidestro, ambíguo)
ANTÍ (antagonista, antídoto) AB (abuso, aberrar)
APÓ (apóstolo, apóstata)CONTRA (contraveneno, contradizer)
Dl (dígrafo, ditongo)BI, BIS (bípede, bisneto)
DIÁ (diáfano, diagnóstico)TRANS (translúcido, transpassar)
EK, EX (êxodo, exorcismo)EX (excêntrico, expatriar)
EN (encéfalo, energia)IN (ingerir, incrustar)
ÉNDON (endocárdio, endocarpo)INTRA (intravenoso, intramuscular)
EPÍ (epiderme, epitáfio)SUPER (superpor, supercílio)
EU (eufonia, evangelho)BENE (benefício, benévolo)
HÊMI (hemiciclo, hemistíquio)SEMI (semicírculo, semimorto)
HYPÓ (hipoglosso, hipótese)
SUB (subsolo, subterrâneo)
KATÁ (cataclismo, catástrofe)DE (decapitar, demolir)
PARÁ (paradigma, paralelo)
AD (advogado, adjacente)
PERÍ (perianto, perífrase)CIRCUM (circumpolar, circunlóquio)
SYN (simpatia, sincronia)CUM (cúmplice, colega)

PREFIXOS LATINOS

  • ABS, AB (afastamento): abster, abstrair, abdicar, aberrar, abjurar, abuso.
  • AD (movimento para, aproximação): adjacente, adjunto, adorar, adventício, advogado. Precedente palavra começada por c, f, g, l, n, p, r, s, t, o d deste prefixo assimila-se a tais consoantes, dando-se posteriormente a simplificação das geminadas, exceto quanto ao r e ao s: acrescentar, afirmar, aparecer; arrendar, arrogar; assimilar, assinar. Este prefixo apresenta a forma vernácula a:
  • abraçar (de braço), amadurecer (de maduro), avivar (de vivo).
  • AMBI (duplicidade): ambidestro, ambiente, ambigüidade, ambivalente.
  • ANTE (anterioridade, precedência): antebraço, anteceder, antedatar, anteontem, antepor, antessala. Tem a forma ant na palavra antolhos.
  • BIS (repetição): bisavô, biscoito, bisneto. Aparece também com a forma bi: biênio, bifronte, bimestre.
  • CIRCUM (movimento em torno): circunferência, circunlóquio, circumpolar, circunscrito, circunvagar. Assume a forma circu em circuito (circu + itum, supino de ire).
  • CIS (posição aquém): cisatlântico, cisandino, cisplatino.
  • CONTRA (oposição): contradizer, contrapeso, contraprova, contraveneno.
  • CUM (concomitância, reunião): A forma latina cum figura em raras palavras portuguesas (cúmplice, cumprir), em que, aliás, já se perdeu o sentimento da derivação. A produtiva é a forma vernácula com, que se apresenta como con antes de consoante que não seja b ou p; co antes de vogal; cor antes de r. Seguindo-se-lhe m ou /, dá-se uma assimilação, simplificando-se depois as geminadas. Exemplos: combater, combinar, compor, comprimir, condensar, confundir, conjurar, consoante; correligionário, corroborar; coexistir, coirmão; comover, colaborar, colégio.
  • DE (movimento de cima para baixo): decapitar, decrescer, deformar, demolir, depenar, depender, depor.
  • DES (separação, privação, ação contrária, negação): desfazer, desfolhar, desleal, desmascarar, desonesto, desprotegido, destravar, desumano.
  • DIS (movimento para diversos lados, ação contrária): discordar, discutir, disseminar, disjungir, distender. Antes de palavra encetada por g, /, m, n , r e v, reduz-se a di: digerir, dilacerar, diminuir, divagar. Antes de f, dá-se a assimilação do s de dis, com posterior simplificação das geminadas:
  • difícil (dis + fácil), outrora grafado diffícil.
  • EX (movimento para fora, estado anterior): excêntrico, expatriar, expectorar, expelir, expor, exportação, exprimir, expulsar; ex-diretor. Apresenta as formas vernáculas es e e: esburacar, escorrer, espernear, espraiar, estender; efusão, emigrar, eleger, evadir, erudito. Às vezes substitui-se es por des: esfarelar ou desfarelar, estripar ou destripar, escampado ou descampado.
  • EXTRA (posição exterior, excesso): extralinguístico, extramuros, extranumerário, extraordinário, extraviar.
  • IN (há dois prefixos in, de origens diversas): Um indica movimento para dentro; é o contrário de ex:
  • incrustar, incorrer, induzir, ingerir, importar, imprimir. Com esta significação, assume a forma vernácula en\ enraizar, enterrar, entroncar. O outro expressa negação, privação: incapaz, incômodo, indecente, inútil, impuro. Em ambos os casos, escreve-se ir antes de r, e i antes d e l em , em consequência da assimilação do n de in às referidas consoantes, posteriormente simplificadas: irromper, irrigar, iludir, iluminar, imigrar; ilícito, imutável.
  • INTER (posição no meio): interamericano, internacional, interplanetário, interromper, intervir. A forma vernácula é entre: entreabrir, entreato, entrelaçar, entrelinha, entretela, entrever.
  • INTRA (posição dentro de alguma coisa): intramuscular, intraverbal, intravenoso.
  • INTRO (movimento para dentro): introduzir, intrometer, introspectivo.
  • OB (posição em frente): obstáculo, obstar, obstruir, obter, obviar. Antes de c, f, p e m, toma a forma o, em razão de o b de ob se assimilar às mencionadas consoantes, simplificando-se depois as geminações: ocorrer, ocupar, ofício, ofuscar; opor, oportuno; omissão.
  • PER (movimento através): ercorrer, perdurar, perjurar, perplexo, permeável.
  • PRE (anterioridade): preceder, precipitar, prefácio, prefixo, preliminar, prepor.
  • PRO (movimento para a frente): progresso, promover, prometer, propelir, prorromper, prosseguir.
  • RE (movimento para trás; repetição): refluir, refrear, regredir; reatar, reaver, reconstruir, redizer, renascer.
  • RETRO (movimento mais para trás): retroagir, retrocesso, retrógrado, retrospectivo.
  • SEMI (metade): semicírculo, semideus, semidemente, semimorto.
  • SUPER (posição em cima): supercílio, supérfluo, super sensível, superpor, superprodução. Tem a forma vernácula sobre: sobrescrito, sobreviver, sobrepor.
  • SUPRA (também posição em cima): supracitado, supradito, suprarrenal.
  • SUB (movimento de baixo para cima; posição inferior): subir, subjugar, submeter, subverter; subdiretor, suboficial, sub-raça, subsolo. Apresenta a forma sus, por subs (como ab por abs): suscitar, suspender, sustentar, suster. Assimila-se o b de sub à consoante inicial de palavra começada por c , f , g t p, criando-se geminadas que depois se simplificam: suceder, sufocar, sugerir, supor. Reduz-se a su antes de sp: suspeitar, suspirar. Assume as formas vernáculas sob e so: sobestar, sobpor; sobraçar, soerguer, soterrar. Em sorrir deu-se a assimilação do b ao r (sob + rir).
  • TRANS (passar além de): transalpino, transbordar, transluzir, transmontar, transpor. Apresenta-se também com as formas tras, tres e tra: trasladar, trasmudar; tresmalhar, tresnoitado; tradição, traduzir. Em certas palavras alternam-se estes prefixos; exemplos: transmudar ou trasmudar; transpassar, traspassar ou trespassar.
  • ULTRA (posição além do limite): ultraliberal, ultramarino, ultrapassar, ultrarrealista.
  • VICE (em lugar de): vice-cônsul, vice-diretor, vice-rei. Altera-se em vis na palavra visconde.

PREFIXOS GREGOS

  • A, AN (usa-se an antes de vogal, a antes de consoante; privação, negação):
  • anarquia, anômalo, anônimo-, acéfalo, afonia, ateu.
  • AMPHÍ (de um e outro lado): anfíbio, anfibologia, anfiteatro, ânfora.
  • ANÁ (movimento de baixo para cima, inversão; repetição): anagrama, análise, analogia, anástrofe; anabatista.
  • ANTI (oposição): antagonista, antídoto, antipatia, antípoda, antítese; antiaéreo, anti-
  • -integralista.
  • APÓ (afastamento): apogeu, apóstata, apóstolo, apoteose.
  • ÁRKHI (posição em cima): arcanjo, arcebispo, arquétipo, arquipélago, arquiteto.
  • DIÁ (movimento através): diâmetro, diáfano, diafragma, diagnóstico, diagonal.
  • DYS (dificuldade): dispneia, dispepsia, disenteria.
  • EK, EX (usa-se ec antes de consoante, ex antes de vogal; movimento
  • para fora): eclipse, écloga (ou égloga); exegese, êxodo, exorcismo.
  • EN (posição interna, movimento para dentro): encéfalo, energia, entusiasmo, embrião.
  • EPI (posição superior; movimento para): epiderme, epidemia, epitáfio, epíteto; epílogo, epístola.
  • EU (bom; tem a forma ev na palavra Evangelho e derivados): eucaristia, eufemismo, eufonia, eugenia. Figura em muitos nomes de pessoa: Eulália, Eudócia, Eusébio, Eugênio.
  • HÊMI (meio): hemiciclo, hemiplégico, hemisfério, hemistíquio.
  • HYPÉR (sobre, além de): hipérbole, hipertrofia, hipercrítico.
  • HYPÓ (embaixo de): hipodérmico, hipocrisia, hipogástrico, hipoglosso, hipótese.
  • KATÁ (movimento de cima para baixo): cataclismo, catacumba, catadupa, cataplasma, catapulta, catarro, catástrofe.
  • METÁ (mudança): metáfora, metamorfose, metonímia, metátese.
  • PARÁ (ao lado de): paradigma, paradoxo, paralelo, parasita, paródia, parônimo.
  • PERÍ (em torno de): perianto, periferia, perífrase, perímetro, período, peripécia.
  • PRÓ (posição em frente; movimento para a frente): problema, pródromo, prognóstico, programa, prólogo.
  • SYN (simultaneidade, reunião): sincronismo, sinfonia, sílaba, silepse, simpatia, simetria, sintaxe, síntese, sistema.

Como pode complicar?

Figueiredo Silva e Mioto (2009) apresentaram um estudo defendendo a hipótese de que os prefixos e os sufixos “selecionam rigidamente a base com a qual se combinam”. Examinaram casos de sufixação que também foram observados na prefixação. Os autores comentam a dificuldade de saber o que é ou não um prefixo da seguinte maneira:

“Parece que a maior fonte de problemas envolvidos na prefixação reside na dificuldade de definir o que é um prefixo. Em geral, as definições são amplas o Pustejovsky (1995) ou assumindo, como fazem Basílio e Andrade (2005) a propósito do prefixo re-, que se trata de polissemia. 10 suficiente para recobrir tudo o que na tradição gramatical é considerado um prefixo.” Figueiredo Silva e Mioto (2009, pp. 9-10)

Cano (1998) vai ainda mais longe ao tratar da prefixação em termos técnicos. Nomenclaturas técnicas têm a finalidade de expressar exatamente apenas um significado, assim, não pode haver mais de um significado para determinado termo técnico.

“A dificuldade maior na interpretação semântica desses termos consiste no conhecimento semântico dos constituintes da palavra derivada, visto que a maioria se forma com elementos gregos presos. Assim, para a interpretação do termo hipolímnio é necessário que se conheça o conteúdo semântico dos constituintes: hipo ‘abaixo’, limnio ‘lago’, ou seja, o fundo dos lagos. Hiperalgia: alges(i)- ‘dor’, ‘-ia’ sufixo expressando afecção, moléstia, estado; hiper ‘excesso’, portanto, ‘estado em que a dor é intensa’. Macroblasto: macro ‘longo’, ‘grande’, blasto ‘broto’. Hipogeo: hipo ‘abaixo’, geo ‘terra’, e assim por diante.” Cano (1998, p. 78)

Gostaram de ver como um processo aparentemente inofensivo pode esconder problemas bem complexos?

Fontes:

CANO, Waldenice Moreira. PREFIXAÇÃO NO VOCABULÁRIO TÉCNICO-CIENTÍFICO. Alfa, São Paulo, 42(n.esp.): 71-91,1998. Disponível em: https://periodicos.fclar.unesp.br/alfa/article/view/4044/3708. Acesso em: 22/02/2019

FIGUEIREDO SILVA, Maria Cristina; MIOTO, Carlos. Considerações sobre a prefixação. ReVEL, vol. 7, n. 12, 2009. [www.revel.inf.br]. Disponível em: http://www.revel.inf.br/files/artigos/revel_12_consideracoes_sobre_a_prefixacao.pdf. Acesso em 22/02/2019.

ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. 1915-1991 Gramática normativa da língua portuguesa / Rocha Lima. 49.ed. – 49.ed. – Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. pp. 251-258.

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