Indígenas brasileiros vs. Chomsky

No dia 19 de abril é celebrado no Brasil O Dia do Índio. Essa data foi criada pelo presidente Getúlio Vargas, através do Decreto-Lei 5540 de 1943. A data de 19 de abril foi proposta em 1940, pelas lideranças indígenas do continente americano que participaram do Congresso Indigenista Interamericano, realizado no México. A data serve como motivo de reflexão sobre os valores culturais dos povos indígenas e a importância da preservação e respeito a essas culturas. Mas o que os indígenas brasileiros têm a ver com um dos mais conhecidos linguistas do século XX?

Indígenas brasileiros: Os Pirahã

Entre tantas etnias indígenas presentes no território brasileiro, os pirahã têm uma particularidade em sua língua que não encontramos em outras línguas. A língua pirahã não tem palavras específicas para números, especialmente contagens como 100 (cem), 1.000 (mil), 1.000.000 (um milhão) etc.

Os Pirahã se auto-denominam hiaitsiihi, categoria de seres humanos ou corpos (ibiisi) que se diferencia dos brancos e dos outros índios. os, responsáveis pela criação de suas almas e destinos, e também de inimigos de guerra. Eles são descendentes diretos dos Mura. Sua língua, organização social, além da semelhança física, entre outros aspectos, evidenciam a aproximação que esses dois povos tiveram no passado. Nimuendajú (1982a/1925) foi quem fez a ligação entre os dois grupos, passando a designar os Pirahã por Mura-Pirahã. Os Pirahã habitam um trecho das terras cortadas pelo rio Marmelos e quase toda a extensão do rio Maici, no município de Humaitá, estado do Amazonas. Segundo o site Povos indígenas no Brasil, a população Pirahã era de aproximadamente 360 pessoas no ano 2000, mas quase desapareceram, pois na “década de 1920 e na de 1970, foram estimados em 90. Em 1985, data do primeiro censo, a Funai contou 141 pessoas, registrando um equilíbrio entre os sexos (cf. Levinho, 1986).”

Estima-se que a maioria dos homens entenda o português, ainda que nem todos sejam capazes de se expressar fluentemente. Muitas mulheres entendem mal a língua portuguesa e praticamente não a utilizam como forma de expressão.

O Apaitsiiso (“aquilo que sai da cabeça”) é o nome dado pelos Pirahã à sua língua. Pertencente à família Mura, a língua pirahã é tonal, caracterizada por utilizar recursos supra-segmentais (a relação entre os tons) para estabelecer significados. Desse modo, os pirahã criam modos de comunicação específicos: por meio de gritos, assobios, mudanças dos tons, “falar-comendo”.

“O grito permite a comunicação a grande distância e, em geral, é usado nas conversas travadas quando estão navegando em uma ou mais canoas pelo rio. A comunicação por meio de assobios ocorre em expedições na mata ou no rio, quando as vozes poderiam colocar em risco o objetivo da expedição. Everett (1983) registrou que os assobios seguem os tons, e não uma tonalidade padronizada que estabelece um significado. Assim, os Pirahã são capazes de proferir palavras, e mesmo frases, com o recurso dos assobios. O “falar-comendo” é a terceira possibilidade de estabelecer comunicação por meio dos tons; enquanto mastigam, podem continuar conversando.”

Everett e os Pirahã

Everett (1979) estudou, à luz da proposta gerativa, a língua Pirahã e constatou que ela vai de encontro a princípios basilares da noção de gramática proposta por Chomsky. Everett identifica que “a acentuação depende primeiramente no tipo de sílaba e secundariamente da posição linear da sílaba.” (1979, p. 51). O pesquisador estabelece, então, a “Regra de Atração de Acentuação”.

“A acentuação recai na sílaba mais perto da última cuja duração, em termos de moras, não é superada por qualquer outra sílaba na palavra.” (p. 52)

Em 2007, a BBC Brasil publicou em seu site o seguinte:

“Segundo Everett, os Pirahã não demonstram fazer uso de um recurso lingüístico que consiste em inserir uma frase dentro de outra do mesmo tipo, como quando o narrador combina pensamentos (“o homem caminha pela rua”, “o homem está usando uma cartola”) em uma única sentença (“O homem que está usando uma cartola está caminhando pela rua”).”

Essa questão provocou muito alvoroço entre os linguistas, alguns contra outros a favor. Em meio a esse embate entre linguistas, os Pirahã receberam muita atenção de estudiosos de várias partes do planeta.

O que Chomsky tem a ver com isso?

Avram Noam Chomsky, em sua visão sobre a teoria da Gramática Universal, entende que todas as línguas naturais têm pontos em comum, por exemplo: estruturação frasal e formação silábica. Essa teoria foi posta em xeque com a apresentação do trabalho de Everett, que foi aluno de Chomsky, sobre uma etnia indígena quase extinta no coração da selva amazônica.

“Ele virou um charlatão”, diz Chomsky

Há fortes indícios, segundo alguns teóricos, de a língua Pirahã (ou apaitsiiso) não ser única e capaz de refutar a Gramática Universal. Ainda em 2007, quando o assunto estava em alta, a Folha de S. Paulo publicou um artigo questionando a exclusividade do Pirahã.

No artigo Longe de ser “único”, pirahã tem traços comuns com o alemão, dizem críticos, alguns teóricos apontaram inconsistências na proposição de Everett. O alemão, o bengali e o chinês seriam outras línguas que compartilhariam características gramaticais com o pirahã. Nesse mesmo artigo, afirmam que os métodos empregados por Everett não são passíveis de questionamentos, inclusive algumas pesquisas foram feitas sem a chancela da Funai, órgão que lida diretamente com os povos indígenas no Brasil

Já em 2009, no artigo “Ele virou um charlatão”, diz Chomsky, o referido autor comenta que as evidencias apontadas por Everett não refutam a GU, pois nem há elementos suficientes para tal nem os aspectos técnicos da GU foram contestado ou refutados efetivamente.

Vale lembrar que Chomsky reviu alguns aspectos da GU em 2003, com Marc Hauser, de Harvard, e Tecumseh Fitch, da Universidade St. Andrews (Escócia).

A briga ainda continua, velada, quase uma guerra fria, mas cabe dizer que um pequeno grupo de indígenas brasileiros foi motivo de discussão internacional entre os mais gabaritados linguistas.

Recomendo:
EVERETT, Daniel Leonard. Aspectos da fonologia do Piranhã. 1979. 142 f. Dissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/270455. Acesso em: 14 abril 2019.

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