Morfema de Gênero em Português

Há vários morfemas que compõem os substantivos e adjetivos, o morfema de gênero é aquele que mais vem causando polêmicas nos últimos anos nas redes sociais. Há duas observações possíveis para esse assunto: uma linguística e outra sociocultural.

Segundo os preceitos da Gramatical Tradicional, há apenas dois morfemas gênero em Língua Portuguesa: Feminino e Masculino. Em outras línguas há também o Neutro, como era no Latim, mas boa parte dos nomes neutros foi assimilada pela forma masculina na passagem do Latim para o Português, por exemplo: templum – neutro de 2ª declinação → templo (masculino)).

A marca do gênero

A marcação pode ser feita por meio do morfema a, para o feminino, ou pelo o ou Ø (ausência de marcação), para o masculino. Os Determinantes (artigos, pronomes e numerais) devem, necessariamente, concordar em gênero e número com o determinado, ou seja, se o Substantivo ou Adjetivo for masculino, o determinante deve estar no masculino, e indicando se há um ou mais exemplares daquele ser participando da ação.

Há Nomes sem a marcação de gênero, como é o casos de ponte, fonte, hidrante, jovem, imigrante, personagem. Estes são apenas alguns dos vários exemplos de palavras que não recebem a marcação clássica, mas têm sua concepção apresentada pelo determinante e por seus adjuntos.

Ex.:

A ponte alta

Fonte bonita

Hidrante seco

Aquele jovem estudioso / Essa jovem aplicada

Esse imigrante cansado/ Aquela imigrante grávida

O personagem másculo / A personagem rica

Ao se referir a um conjunto formado por dois ou mais seres do grupo masculino, mesmo que haja nele seres femininos, é utilizada a forma do masculino plural.

A palavra “brasileiros” pode se referir a apenas homens ou aos homens e às mulheres naturais do Brasil. Quando uma autoridade inicia seu discurso com “brasileiros e brasileiras”, fica evidente separação entre homens e mulheres, uma vez que brasileiros equivale a “brasileiros + brasileiras”.

É óbvio que há situações nas quais não se tem dúvida do sexo/gênero do público alvo. O assunto é “câncer de próstata”, por exemplo, não é possível pensar que há mulheres sendo examinadas ao ler a frase: “Funcionários da Emlur fazem exame de próstata no Novembro Azul”1

Outro modo tradicional de se marcar o masculino e o feminino nas palavras é a adição do morfema de gênero, com suas devidas flexões entre parênteses no final da palavra.

Ex.:

“Amigo(a)” / “amiga(o)”

“Funcionários(as) / “funcionárias(os)”

“Irmão(ã)” / “irmã(ão)”

“Os(as) dentistas” / “As(os) dentistas”

“Professor(a) / Professores(as)” / “Professoras(es)”

Nos exemplos acima, o que está entre parênteses substitui o morfema inteiro, não só a vogal característica. Geralmente a forma masculina vem primeiro, e não há espaço entre a palavra e o parêntese.

Vamos tratar das diferenças semânticas entre as palavras masculinas e femininas em outro artigo.

Morfema de gênero não ortodoxo

Há alguns anos, por causa das lutas pelas causas de igualdade de gênero, sejam elas promovidas pelo movimento feminista, ou pelos grupos LGBT, a letra X vem sendo empregada no lugar do morfema de gênero. Assim, palavras como moço(a), arquiteto(a), do(a), estagiário(a), etc. são reescritos como moçx, arquitetx, dx, estagiárix, etc. Dificilmente seria empregada em palavras como casa, ponte, vila, etc. uma vez que elas só podem ser femininas. As palavras criança, vítima e testemunha só podem ser escritas no feminino, mas são aplicáveis a seres do sexo masculino.

Ex.:

João Pedro é uma criança muito esperta.

Carlos é uma das vítimas do acidente.

Mário e Paulo são testemunhas valiosas para o caso.

Em nenhuma das frases acima se coloca em dúvida o sexo, muito menos a orientação sexual dos sujeitos. Não cabe, então, colocar o X – testemunhxs, vítimxs, criançx – já que são palavras tipicamente femininas.

Casos curiosos

Entre outras ações que geraram bastante polêmica, o cartaz abaixo foi afixado na parede do Colégio Pedro II, colégio tradicional da cidade do Rio de Janeiro, contendo essa nova postura no tratamento de gênero, marcando com o X.

“Prezadxs alunxs, com o término das obras a sua entrada para as aulas de Educação Física e para o almoço será realizada pela rampa de acesso, ao lado do Ginásio e próximo ao refeitório escolar. Sendo assim, não haverá a permanência de alunxs nos corredores e acesso para as salas de aulas no período de 12:15 h, quando os portões serão fechados, até a sua abertura para a entrada dos alunxs do turno da tarde para aulas regulares e contra turnos. Agradecemos a sua colaboração, Coordenação.”

O erro está no trecho “a entrada dos alunxs do turno da tarde”, seguindo a lógica proposta, o correto seria “a entrada dxs alunxs do turno da tarde”, pois “alunxs” não deve remeter diretamente ao gênero masculino ou feminino, mas “dos” implica necessariamente no entendimento de masculino plural, como já explicado.

Vejam outros dois exemplos de uso incorreto:

“É negar aos trabalhadores o acesso a uma educação de qualidade para seus filhxs pequenxs” e “Xs funcionárixs da creche estão dispostos a receber as novas crianças”2

“O Movimento Passe Livre apoia a luta dos trabalhadorxs, e busca junto com todxs, construir um transporte de fato público e com um ambiente de trabalho justo! ”3

O erro da primeira está no trecho “qualidade para seus filhxs pequenxs”, o pronome possessivo tem duas formas, seu e sua. Diferentemente do artigo, o possessivo não concorda com o possuidor, ao contrário, concorda com o possuído. Se forem “filhos pequenos”, indica masculino plural, logo o possessivo tem que ir para o masculino plural seus; se forem “filhas pequenas”, o correto é o feminino plural suas. Alguém entende que em “negar aos trabalhadores” está se referindo apenas aos homens? Na outra frase o erro está em “a luta dos trabalhadorxs”, cai no mesmo caso do que eu disse sobre o trecho “a entrada dos alunxs”.

Mais recentemente, uma imagem circulou pelas redes sociais com tom jocoso a respeito de um cartaz com uma palavra ainda não dicionarizada: professoros.

Na foto ao lado, não consegui uma com melhor resolução nem a autoria, a indignação dos professores foi tão grande que não perceberam o erro gramatical cometido. O morfema de gênero que expressa o plural de professor é es, assim, o ideal seria: “professoras(es)”.

Questões socioculturais

Até agora apresentei motivos linguísticos tradicionais para não se usar X como morfema de gênero, isso vale para o @, para o *, para quaisquer sinas não previstos pela Tradição. Não sou contra os movimentos de igualdade. Acredito que há outras formas de linguagem inclusiva e que algum dia não haverá uma forma tida como excludente na fala. Sugiro a leitura dos textos: Linguagem inclusiva de gênero em trabalho acadêmicoDeixando o X para trás na linguagem neutra de gêneroAlgumas considerações sobreos usos de “@” e “x” para desfazer marcas de gênero e do artigo O uso do “x”como marca de gênero no facebook®: uma análise sociolinguística. Não são os únicos textos sobre o assunto, mas podem ser leituras muito valiosas sobre o assunto.

Se o intuito é de mudança da língua, ok… Serão necessárias reformas na sintaxe, na morfologia, na fonologia, no léxico e na semântica da língua. A língua só muda porque os falantes mudam. A Norma Padrão tem um propósito, gostemos ou não. A linguagem inclusiva pode deixar de ser característica das “minorias” e fazer parte da “maioria”, mas isso demanda tempo e luta. Tal mudança será fácil, aceita por todos ou rápida? Acredito que não.

Espero não ter ofendido nem denegrido essa ou aquela pessoa.

Frases:

  1. Disponível em: <http://www.joaopessoa.pb.gov.br/funcionarios-da-emlur-fazem-exame-de-prostata-no-novembro-azul/>. Acesso em: 26. nov. 2015.
  2. Disponível em: <http://juntos.org.br/2015/02/sou-mae-e-a-usp-esta-me-proibindo-de-estudar/>. Acesso em: 26. nov. 2015.
  3. Disponível em: <http://mpljoinville.blogspot.com.br/2015/06/greve-de-motoristas-por-todo-o-brasil.html>. Acesso em: 26. nov. 2015.

Imagem:

Disponível em: <http://extra.globo.com/incoming/17564878-db9-648/w533h800/pedro-IIGLOBO.jpg>. Acesso em: 26. nov. 2015.

Reportagem:

Disponível em: <http://extra.globo.com/noticias/educacao/professores-estudantes-comecam-usar-termo-alunxs-para-nao-determinar-genero-17564879.html>. Acesso em: 26. nov. 2015.

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