Você não fala como escreve!

Não importa o seu nível de escolaridade, não importa o local de nascimento nem onde você mora. Não importa a língua que você fala. Você não fala como escreve! Muitas pessoas com baixa escolaridade tentam de alguma maneira minimizar essa discrepância, mas não conseguem porque inevitavelmente haverá sempre um distanciamento entre fala e escrita.

Por que uma pessoa não fala como escreve?

Há dos motivos para essa frase ser verdadeira. Motivos que passam pelo grau de instrução e por questões intrínsecas à linguagem. Pessoas são preteridas pela maneira como falam e como escrevem. Eu defendo a norma-padrão e que ela tem local e momento adequados de utilização. Falar e escrever bem deve ser compreendido não só como conforme a norma-padrão ou não. Caso eu escrevesse com uma norma diferente da que minha mãe domina, meus bilhetes não seriam compreendidos.

Não só o gênero ou o tipo de texto devem ser levados em conta. A estruturação sintática e a escolha das palavras sempre será feita de maneiras distintas quando o texto é falado ou escrito. Mesmo textos orais mais planejados têm momentos de afastamento do texto escrito. Textos menos planejados, coloquiais ou cultos, tendem a colocar pausas onde não deveriam haver vírgulas, por exemplo: “então… Mário e Letícia… fizeram todo o… trabalho na semana passada.”

Tudo se passa como se a escrita já tivesse sido inventada antes de ser posta em relação com a língua, antes de ser fonetizada: o advento da escrita é o advento de algo que já é a escrita (considerando que a sua característica fundamental é o isolamento de um traço significante através da grafia) e que, depois de uma evolução lenta e descontínua, acaba por poder servir de suporte ao som (BARTHES e MARTY, 1987, p.32).

No plano fonético e morfológico

Assim, além do grau de escolaridade, que evidentemente afasta a fala da escrita da padrão, também a própria noção de escrita está desvinculada intrinsecamente da fala. A pessoa não fala como escreve justamente pelo fato de não haver correspondência obrigatória entre os sons e os caracteres grafemáticos.

Não existe nada que justifique a escrita do som [ya] como ya ou ia, muito menos como や ou Я. A utilização de um alfabeto ou de um silabário não ajuda. Não há correspondência imediata entre a escrita e o som, nem mesmo o International Phonetic Alphabet (IPA). O alfabeto fonético internacional é um punhado de símbolos empregados na descrição fonética.

Os alofones, diversos fones debaixo de um só fonema, são grafados de uma mesma maneira, salvo situações muito específicas. O português resolveu alguns desses problemas com a adoção de acentos para as vogais, dígrafos e, mais recentemente, consoantes características de outros idiomas. O exemplo do ditongo [ya] pode ser grafado de diversas maneiras, todas legítimas.

Assim, não há como uma pessoa falar exatamente como escreve. Pode parecer alarmismo, mas efetivamente você não fala como escreve!

Ver mais em: As relações entre fala e escrita: mitos e perspectivas

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