Como reconhecer um discurso irônico?

Estamos em tempos de “fake news” e discursos de ódio sendo disseminados gratuitamente, desinformação. Há muita falta de interesse das pessoas de ao menos consultar as fontes das notícias. Curiosamente no momento histórico que temos mais acesso a diversas informações, tem-se uma propagação de falsas notícias e uma preguiça generalizada de buscar as fontes originais. O discurso irônico têm sido utilizados em duas frentes, basicamente. Vamos ver como o discurso irônico tem sido empregado recentemente.

O que é um discurso irônico?

Este é um dos artigos mais particulares que já escrevi neste blog até o momento. Já estava engavetado há algum tempo, mas a proximidade das eleições de 2018 propicia isso.
Primeiramente temos que definir o que é Ironia. Conforme o Aulete: “1. Dito fino e dissimulado; SARCASMO. 2. Ling. Figura de linguagem, ger. us. para fazer graça ou mostrar irritação, em que se declara o contrário do que se pensa. 3. Acontecimento ou desfecho contrário ao que se esperaria das circunstâncias: Por ironia do destino, ela que gosta tanto de crianças não pôde ter filhos. [F.: Do lat. ironia, ae, do gr. eironeía, as.]”

O mesmo dicionário eletrônico traz o seguinte complemento: “Ironia socrática: 1 Fil. A atitude de (como o fazia Sócrates [s.V a.C.] nos diálogos e debates filosóficos) aparentar desconhecimento ou ingenuidade e, com perguntas habilmente dirigidas ao interlocutor, levá-lo a expor suas contradições ou a própria ignorância.”

Características do discurso irônico

Analisando o resultado obtido na busca da palavra ironia, vejamos o que se pode apreender dos significados apresentados.

“1. Dito fino e dissimulado; SARCASMO.”

“Dito fino” remete a algo elaborado e erudito, mas “dissimulado” remete a algo que não confere com a realidade, “fake”. Ou seja, o discurso apresentado não confere com a realidade nem com aquilo que a pessoa é. Mas, ao definir como “sarcasmo”, precisamos ver o que significa isso. Ainda nesse mesmo dicionário, “1. Zombaria amarga e insultuosa: “Saído de uma página de Eça, volta a ela como objeto de sarcasmo.” (Antônio Callado, Reflexos do baile))[F.: Do gr. sarkasmós ‘riso amargo #####]”. Logo, não se pode esperar não ofender, pois esse é o propósito dessa forma.

2. Ling. Figura de linguagem, ger. us. para fazer graça ou mostrar irritação, em que se declara o contrário do que se pensa.

Agora fica um pouco complicado. Quando se diz “fazer graça ou mostrar irritação”, espera-se que o receptor da mensagem tem algum nível de intimidade com o emissor para saber diferenciar quando a intenção é pura e simplesmente fazer graça ou mostrar indignação frente a um fato ou evento. Se o enunciado “declara o contrário do que se pensa”, aquilo não retrata o real pensamento do emissor. Logo não deveria servir de argumento para atacar a pessoa que se vale do discurso irônico para mostrar sua opinião.

3. Acontecimento ou desfecho contrário ao que se esperaria das circunstâncias

Então o resultado da mensagem enunciada é exatamente oposta ao que se lê. O que está dito/escrito não é uma mensagem clara, precisa de um esforço do receptor ao relacionar a mensagem com a comprovação dos fatos reais. Metáforas são bastante utilizadas para correlacionar figuras antagônicas.

Tipos de discurso irônico

Parece que o tipo mais comum é o sarcasmo, mas são três os tipos de discurso irônico: Asteísmo, Sarcasmo e Antífrase. Percebam que o uso metafórico da linguagem está presente em ambos os tipos, mas os meios utilizados são bastante diferentes.

Asteísmo

Esse tipo de discurso promove efusivos elogios enaltecendo uma pessoa que não os merece.  Geralmente é utilizado para dissimular um elogio sob a forma de um juízo crítico (o contrário é verdadeiro). Parece que foi um comentário equivocado, mas pressupõe uma premeditação dos sentidos duplos apresentados. Exemplo: “A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar crianças”. (Monteiro Lobato)

Sarcasmo

Aparentemente o mais comum, pois se vale da zombaria para expressar uma opinião. Por exemplo: “Joana sempre anda com joias e roupas finas, um nojo”.

Antífrase

Esse pode gerar bastante confusão, pois são feitos grandes elogios às ideias funestas, erradas, fora de propósito e palavras ofensivas são amplamente utilizadas. Tem uma retórica muito próxima da ironia, do eufemismo, do sarcasmo e da sátira, utilização de uma palavra ou expressão com sentido contrário àquele que normalmente denota. Pode-se empregar a antífrase ao atenuar uma ideia negativa, utilizando palavras mais otimistas.

Geralmente a antífrase segue a seguinte estrutura: o elemento positivo evidencia o valor negativo subentendido; atenuam-se as imperfeições, faltas ou vícios. Caso clássico: “Olha! A bela adormecida levantou…” (situação: frase dita pela esposa após o marido acordar às 17:00, depois de chegar bêbado às 03:00 da madrugada).

Problemas de um discurso irônico

Geralmente, 90% dos problemas de interpretação desse tipo de mensagem são resolvidos observando os gestos corporais e expressão facial do emissor. Mas quando o texto está na modalidade escrita e há um distanciamento daquele que escreveu a frase irônica, o mal-entendido raramente é evitável. Se o tipo de discurso for o antifrásico, a situação piora ainda mais.

Muitos políticos, por exemplo, fazem “piadinhas”, “brincadeiras” sem que fique clara a sua real intenção. Textualmente, são ofensas e elogios a coisas erradas, mas seria de se esperar que a pessoa que diz esse tipo de frase não concordasse com o que está sendo dito. Mas como ter a certeza? Como saber se aquele “elogio” ao nazismo não é realmente um elogio?

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.