Estória ou História?

Para acabar com essa dúvida, venho comunicar que o correto é História e não existe “estória”! Aí você me pergunta: “Mas como poderia não existir se muita gente faz distinção entre as duas formas?”. Respondo: mas antes, quero saber qual é o correto, adevogado ou advogado? A quem respondeu advogado eu pergunto, porque tanta gente ainda fala adevogado?

Como começou essa estória?

João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL), propôs a adoção do termo estória, em 1919. Essa palavra passaria a designar histórias do folclore, narrativas populares, contos tradicionais, pois esse era um dos objetos de estudo dos especialistas de Literatura. Não foi considerada como inventada, mas como que um “resgate” a uma possível forma arcaica, comum nos manuscritos medievais de Portugal.

Na verdade, pode ter sido uma pontinha de inveja por causa de “story” e “history” do Inglês. Pareceria uma tentativa de melhor traduzir e entender frases como “Stories are not History“ ou “The History of a Folk Lore“. Esse problema de tradução ocorre na seguinte frase: “The Force is strong in you”, dita a algumas personagens de Star Wars. Geralmente é traduzida por “A Força é poderosa em você”, mas uma tradução literal seria “A Força é forte em você”, algo que soaria bastante estranho em português.

Não se encontra um vocábulo diferente de “história” nos documentos medievais mais confiáveis. No começo da transição do Galego-Português para o Português, muitas palavras eram grafadas com “ç”, mesmo em início de palavra, “z” no lugar de “ç” etc. Alguns exemplos dessa variação na escrita pode ser: “história”, “hestória”, “estória”, “istória”, “estórea” (acentos marcados aqui apenas para indicar a tônica).

Então como fica essa história?

Certa vez Napoleão Mendes de Almeida questionou num tom muito irônico: “Se curtos de inteligência foram nossos pais em não terem descoberto essa história de “estória”, curtos de inteligência continuamos todos nós em não forjarmos distinção gráfica e fonética para poder, para educação, para raio, para oficial e para outros vocábulos de formas diferentes em Inglês, como curtos de inteligência são todos os outros idiomas que têm palavras com mais de uma significação”.

Os que defendiam “estória” pretendiam unicamente distinguir “a História do Brasil” das “Histórias da Carochinha”. Se tentaram justificar sob o enfoque linguístico, erraram e muito. Essa não é uma distinção das mais úteis. José Neves Henriques condena essa invenção “brasileira”, já que em Portugal não existe “estória”, e taxa essa lindeza de palavra como “uma palermice, porque, até agora, nunca confundimos os vários significados de história. O contexto e a situação têm sido mais que suficientes para distinguirmos os vários significados”. Quem acredita em história pra boi dormir?

Como nossos estimados literatos quiseram nos deixar a palavra “estória”, qual seria a grafia correta de “Deixa de histórias!”; “Isso já é uma outra história“; “Que história é essa?”; “Eu e ela temos uma velha história”; “História de pescador”. Qual das duas formas deve ser usada?

João Ribeiro pecou ainda mais quando disse que as duas formas seriam distinguíveis na fala, mas a vogal “e”, em inicio de palavra e pré-tônica, é, por vezes, pronunciada como “i”. Pense em frases que contenham as palavras “escola”, “engano”, “ensaio” e “espelho”… Ambas seriam pronunciadas da mesma maneira: [istória], ou seja, isso é um problema de Fonética. Os amantes de quadrinhos passariam a usar EQ em vez do consagrado HQ?

Afinal de contas, qual o correto?

De qualquer forma, o uso de estória poderia ter ficado confinado ao mundo do folclore, onde talvez fosse de alguma utilidade. Não é incomum que certas áreas do pensamento postulem, para uso exclusivo, vocábulos novos ou variações fonológicas ou ortográficas de vocábulos antigos, no afã de obter maior precisão em seus conceitos. Isso se verifica, por exemplo, na Filosofia, na Lógica, na Linguística, na Psicanálise (onde me chama a atenção a impressionante inquietação linguística dos lacanianos).

Como é natural, essas variantes vão fazer parte de um código específico, cujo emprego passa a ser indispensável para os especialistas daquela área, mas não entram no grande caudal da língua comum. A criação, utilização e, muito seguidamente, a agonia e morte dessas formas são registradas em discretos dicionários especializados, convenientemente isolados do grande rebanho representado pelos dicionários de uso.

A criatura estava muito bem controlada dentro de jaulas na ABL e não fazia mal a ninguém, até que um senhor chamado João Guimarães Rosa resolveu libertar os seres do setor de Neologismos. Quando Rosa decidiu publicar “Primeiras Estórias” (1962), virou bagunça, como se não bastasse, esse boníssimo senhor escreveu outros dois livros chamados “Tutaméia – Terceiras Estórias” (na época ditongos do tipo “ei” eram acentuados) e o póstumo “Estas Estórias”. Muito tem sido escrito sobre a inovação da linguagem rosiana, mas nenhuma das palavras montadas, deformadas ou inventadas por ele jamais será usada, a não ser por escassos imitadores.

Brincadeiras à parte, Estória está nos dicionários, mas estes ainda remetem à palavra História.

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