Realidade e a primeira vez que morri

Isso mesmo, você não leu errado nem é um conto, essa é a história da primeira vez que eu morri. Vou utilizar essa história para refletir sobre como as pessoas lidam com a realidade. Trago algumas memórias minhas, pode ser que alguns fatos possam ter ocorrido de maneira diferente da que eu me lembro.

A realidade dos fatos pode ser diferente daquela que guardamos na memória. Sempre apagamos certos fatos, mudamos a ordem de determinados eventos e criamos situações, normal. Vamos à história…

Aos 15 anos, eu já tinha jogado vários jogos de videogame (de luta, de corrida… de vários gêneros), mas nunca tinha jogado RPG de mesa. No Ensino Médio, ainda no primeiro ano, tive contato com esse tipo de interação social, foi inesquecível… passar um recreio inteiro para entender os procedimentos e o preenchimento da ficha, saiu algo próximo de um Kuririn (e essa analogia não é à toa). Passada a hora do almoço, nem me lembro de ter almoçado naquele dia, anda antes de começarem as aulas de reforço, começamos a jogar.

Alguns dias depois, ou no dia seguinte, não me lembro bem, na hora do recreio, fomos investigar uma caverna (era uma toca) e falhei num teste de percepção (sabe quando a pessoa nem vê o carro desgovernado?), foi assim que uma garra dilacerou o tronco do meu personagem (eu tinha quase 10 pts de vida e o ataque foi quase 12 pts de dano, morri na hora).

Não tive tempo de avisar meus colegas nem me despedir nem nada. Morto aos 25 anos, sozinho, sem poder avisar que o local era realmente perigoso.

Isso foi o suficiente para acabar com o meu dia. Não consegui me concentrar nas aulas que se seguiram.
Já tinha perdido inúmeras vidas com Mario, Sonic, Ryu, Samus, Cyrax e muitos outros personagens, mas minha relação com Leizen (sim, esse era o nome do meu personagem… inspirado no pai do Yusuke) era totalmente diferente. Além da experiência nova, eu tinha injetado naquele personagem uma expectativa totalmente diferente, interrompida abruptamente.

Meu personagem foi ressuscitado (por isso eu disse que a comparação com Kuririn era boa), morreu mais vezes, foi ressuscitado outras, morreu de velhice, criei outros personagens, joguei com outras pessoas, morri mais vezes, sacrifiquei minha vida em outra campanha, mas aquela morte foi muito significativa.

O que é Realidade?

“Realidade”, conforme o dicionário: 1) Qualidade ou estado do que é real. 2) O que existe realmente; o que tem existência objetiva, em contraste com o que é imaginário ou fictício; fato real, realidade, realeza. Procurar significados no dicionário só aumentam o problema. Se eu não sabia o que era realidade, agora tenho que descobrir o que é “real”, “existência objetiva”, “imaginário” e “fictício”.

O filme Matrix, refiro-me ao primeiro, trouxe uma discussão interessante. O real é o que experimentamos sensorialmente? Existem experimentos que mostram como a mente humana lida com experiencias sensoriais.  Ver vídeo abaixo:

A morte daquele meu personagem foi real para mim. Eu me projetei para aquela situação e me coloquei no lugar virtual que era acessado unicamente com a minha mente. A “projeção de ground” é um recurso estudado em Linguística Cognitiva. Ela faz com que um indivíduo experimente situações, idealizando-nas a partir de suas vivências.

A realidade e a “projeção de ground”

Quando tratamos de “ground” em Linguística, pensamos em instanciações de realidade. Tecnicamente, Ground é ”o objeto em relação ao qual um primeiro é considerado em movimento ou localizado”. Talmy (1983: 232) afirma que o ground é, portanto, “um objeto de referência (ele mesmo tendo uma posição fixa dentro de um referencial) em relação ao qual o local, caminho ou orientação da figura recebe caracterização”, desse modo, estas definições partem da concepção de Rubin, para quem a Figura é semelhante a uma “coisa” e um Ground é semelhante a uma “substância”, mas para Talmy tanto F como G são parecidos com coisas.

Sugiro o texto Jean-Michel Fortis – Space in Language – Leipzig Summer School 2010 –PART I

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