Você já se perguntou sobre como as palavras foram criadas? Outra pergunta que também pode ser feita é se ainda é possível criar novas palavras. A formação de palavras é um assunto bastante discutido por gramáticos e linguistas, sendo esse o calo de muitos estudantes. Neste artigo, vamos tratar da maneira como as palavras foram e podem ser criadas na língua portuguesa. O foco será no processo de prefixação. Tem bastantes referências no final para você conferir.

Um dos processos de formação de palavras por derivação é a prefixação. Não se pode negar o fato de que esse processo tem algumas propriedades semelhantes às da sufixação, o que caberia para diferenciar-se do processo composicional, ou, na verdade, filia-se à composição, distinguindo-se da sufixação. Não há consenso na categorização, por parte de alguns teóricos em relação à gramática tradicional, se a prefixação constitui ou não um processo uniforme e se pode ser tratada como composição ou derivação.

Autores, como Basilio (1989; 2000), Oliveira (2004), Pereira (2006), Bauer (2005), Booij (2005), Kastovsky (2009), Jacob (2011) e Gonçalves (2012), defendem a “individualidade dos elementos prefixais” e consideram a prefixação como um processo especial a depender de cada elemento prefixal, por isso tanta dificuldade de encaixar tal estrutura numa única classificação. A classificação baseada em protótipos e/ou por meio de continuum parece ser mais vantajosa ao descrever tais operações morfológicas da língua portuguesa.

Por mais que as Gramáticas Tradicionais (GT) tratem do assunto como se fosse comum, nota-se uma certa polêmica envolvendo o processo de prefixação na formação de palavras: (a) há quem defenda sua formação semelhante ao que ocorre com a sufixação, dessa forma não pode ser categorizado como composicional, apenas como derivacional, mas (b) outros estudiosos entendem que as características desses vocábulos se assemelha com a composição, cabendo apenas à sufixação, legítimo direito de representar a derivação.

Sob esse enfoque, podemos considerar que a categorização com base em protótipos e por meio de um continuum se mostra mais condizente com a heterogeneidade tipológica do sistema de formação de palavras do português, uma vez que as fronteiras entre os vários tipos de formativos não são tão nítidas e alguns elementos se encaixam numa categoria com mais precisão que outros (GONÇALVES & ANDRADE, 2012, p. 121).

Dessa forma, veremos como o tema é tratado sobre a melhor classificação da prefixação na formação de palavras: seja na derivação ou na composição. Também são levantados comentários gerais sobre algumas das principais características que diferenciam prefixos e sufixos. Ao final, discute-se a ideia de continuum radical-afixo e aloca-se, segundo a classificação de Gonçalves (2012), os prefixos legítimos e os prefixos composicionais ao longo de uma escala.

A Formação de Palavras por Prefixação

Consultando as GT, mesmo as revisadas, como Bechara (2009), vemos que “entre os procedimentos formais temos, assim, a composição e a derivação (prefixal e sufixal)” e, ainda segundo o mesmo autor, “por composição entende-se a junção de dois elementos identificáveis pelo falante numa unidade nova de significado único e constante” (p. 431) A composição, como processo de formação de palavras, se dá a partir de dois elementos “autônomos”: (a) um prefixo mais uma palavra (por prefixação), (b) junção de duas palavras que conservam, cada uma, sua grafia e sua prosódia (por justaposição), ou (c) através de duas palavras com perda da autonomia prosódica de uma delas (por aglutinação), segundo Pereira (1940: 187).

Mattoso Câmara Jr. (1971, 1976 e 1977) chama a atenção, em seus vários escritos, para o fato de, ainda na sua época, não haver uma padronização para determinados conceitos, por exemplo, o conceito de vocábulo. Uma vez que tal termo não estava bem definido, outras associações atribuídas a essa categoria estariam, também, passíveis de tratamento confuso. Mattoso Câmara Jr. (1976: 228) assinala, a respeito do processo de formação por prefixação ou por composição, que a prefixação se baseia nas “partículas” que também funcionam como preposições; naquelas que são variantes das preposições clássicas; e naquelas que só podem existir como prefixos.

Na contramão da proposta de Mattoso Câmara Jr., Freitas (1975) entende que a relação entre os prefixos e alguns tipos de preposição se mostra num ponto de vista diacrônico, apenas. Na descrição sincrônica não haveria algo além de uma mera coincidência na forma, já não teriam mais o caráter preposicional de outrora. Ele conclui essa argumentação afirmando que o prefixo não se sustém como “forma livre”, ao passo que “mantemos na língua, isto sim, formas livres homônimas de certos prefixos” (FREITAS, 1975: 96).

Uma discussão bastante recorrente é se prefixos como elementos como sobre (‘sobretudo’), contra (‘contrapor’), mal (‘mal-humorado’), extra (‘extraclasse’), além (‘além-túmulo’), menos (‘menos-valia) e não (não-agressão) podem figurar na Derivação por Prefixação ao lado de in- (indescritível), des- (desigual), re- (reexibir), bi- (biapoiado), sub- (subnutrido), anti- (anticorrupção), entre outros, por causa da natureza dos primeiros ser diferente da natureza dos últimos, do ponto de vista morfológico.

Os Prefixos e os Sufixos na Formação de Palavras

Alguns dos processos derivacionais, ocorrem pela aposição de um afixo antes ou depois da base, a saber, prefixação (afixo anteposto) e sufixação (afixo posposto). Esses procedimentos apresentam tratamento diferenciado na organização da frase. Sufixos são afixos que se encaixam à direita da base e podem alterar a classe gramatical desta mesma base: uma palavra que recebe um sufixo pode sofrer alteração da categoria gramatical a que pertence, dependendo do elemento encaixado.

Considerar, apenas, a posição de afixação na base é uma análise demasiadamente pobre, pois outras características se mostram mais eficazes para a diferenciar prefixos de sufixos. A posição à esquerda da base não confere “função sintática”, conforme Basilio (1987), traço que ocorre quando aditamos um elemento à direita da palavra tida primitiva. Sufixos são cabeças semânticas e, dessa forma, atribuem à nova palavra um caráter sintático por vezes diferente do da base.

Outro ponto de diferença entre prefixos e sufixos é a atribuição de gênero e número que pode ocorrer na palavra derivada. Prefixos não são alocados no final da palavra, posição, esta, exclusiva das marcas de gênero (masculino/feminino) e número (singular/plural). Uma vez que os sufixos se unem à base na ponta direita, os morfemas citados podem somar-se, mas, em alguns casos, alguns sufixos já trazem em si a noção de gênero, como vemos na Quadro 3: Quadro 3 Vemos que alguns sufixos são, por natureza, característicos de um determinado gênero, mas há outros cujo gênero pode ser flexionado por apresentarem disponibilidade morfológica para tal processo, como é o caso dos exemplos abaixo:
-tor(a): genitor(a)
-ário(a): bibliotecário(a), secretário(a)
-ol(a): espanhol(a)
-astro(a): padrasto, madrasta (houve dissimilação)
-(z)inho(a): mocinho(a), irmãozinho/irmãzinha
-oso(a): bondoso(a), espirituoso(a)
Com base nessas, e noutras características, não há como confundir prefixos com sufixos: quer seja por sua posição, quer seja por sua contribuição morfológica em relação à base.

Características semânticas e morfofonológicas dos prefixos

Já foi dito que os prefixos não atribuem significado, tal qual ocorre com os sufixos. Sua contribuição semântica à palavra primitiva se dá no acréscimo de informações como se fossem adjuntos – procedimento diferente do que ocorre com os sufixos, que atribuem informações outras sobre o elemento derivado.

No âmbito da forma, prefixos se ligam à base na ponta esquerda e não se unem a formas presas, como os sufixos o fazem. Sua interferência na estrutura da palavra se dá no acréscimo de elementos determinantes, como sugere Sandmann (1989). Retirar um prefixo da forma derivada não garante que a base se apresente como uma forma presa, ao contrário dos sufixos que são fixados, geralmente, a uma forma presa da base. Dessa maneira vemos que os processos derivacionais estão intimamente ligados à palavra, mais o sufixo do que o prefixo, quanto a sua estrutura morfológica.

A respeito das características fonológicas, prefixos tendem a manter o acento primário da base, ao contrário dos sufixos, que geralmente deslocam a tônica mais à direita. Considerando o Português uma língua grave, o acréscimo de sílabas à esquerda não altera, de modo geral, a característica da tônica nem da abertura da vogal.
Dispor (dis.pÔr) → Predispor (pre.dis.pÔr)
Retrato (re.trA.to) → Retratista (re.tra.tIs.ta)

A independência dos prefixos

A concepção mais bem aceita acerca dos prefixos se baseia na capacidade de eles acrescentarem informações às palavras que se ligam. Os Prefixos Composicionais (PC) e os Prefixos Legítimos (PL), como postulou Basilio (2000), foram agrupados por Schwindt (2001) de acordo com a Quadro abaixo:
Quadro 5

Percebe-se que alguns dos PCs dissilábicos e monossilábicos podem condensar, por metonímia, o significado da palavra derivada que melhor se adequa ao contexto. Os exemplos (10), (11) e (12) dão melhor suporte a essa argumentação.
A professora Maria é minha orientadora, o Carlos é o meu co. (co = co-orientador)
Não aceito cheque pré. (pré = pré-datado)
A presidente encaminhou ofício para o vice decidir. (vice = vice-presidente)

Diferente do que ocorre com boa parte dos PLs que não têm autonomia semântica e comumente não se desgarram da base no processo metonímico; podemos listar, ao menos, duas possíveis exceções a essa regra, são os casos com sub- e trans- nas frases (13) e (14).
Não encontrei o tenente, mas comuniquei o fato ao sub.
Precisamos de novas leis para alimentos trans.

É certo que nem todos os PLs podem ser tomados como o todo no recurso metonímico, uma vez que apenas os PCs, e não os PLs, “são potencialmente isoláveis, ou seja, em dado contexto podem se instanciar isoladamente”, como Schwindt (2001) afirma. O que temos é a realização de alguns prefixos sob a forma de preposição, pois sua origem é historicamente derivada das preposições.
Como parte do processo deformação de palavras, uma forma muito típica da língua portuguesa é a de somar radicais greco-latinos a outras bases para aumentar o vocabulário, por exemplo, biomassa, biotecnologia, biologia, etc. Esse tipo de construção composicional admite a posição do radical latino tanto na ponta direita, quanto na ponta esquerda.

A composição neoclássica não é considerada por especialistas como um empréstimo, como “repórter”, por exemplo, “biologia”, em contra partida, é mais que uma simples junção de “bios” mais “logos”, ambos do grego, até porque em diversos casos a morfologia desses radicais se altera quando estão à direita ou à esquerda do elemento considerado base, outro ponto que caracteriza essa construção é a observação dada por Lüdeling (2009) tomando tais construções como que “formadas por mecanismos que muitas vezes diferem da formação de palavras com radicais nativos, mesmo nas línguas românicas”.

Os prefixos nos Compostos Neoclássicos

Assim como temos uma falta de unanimidade quanto à classificação da prefixação, se é Derivação ou Composição, a composição neoclássica também tem diversas nomenclaturas e cada qual tem como enfoque uma ou outra característica do tipo de radical envolvido. Os nomes dados são: Raízes Neoclássicas (Scalise, 1984); Raízes de Fronteira (ten Hacken, 1994); Afixoides (Marchand, 1969); Semiafixos (Schmidt, 1987); Pseudoafixos (Katamba, 1990); Formas Combinatórias Iniciais / Finais (Bauer, 1988); Confixos (Martinet, 1979); Arqueoconstituintes (Corbin, 2001); Afixos (Bauer, 1979).

Independente do nome dado, para analisarmos e esse tipo de composto, temos que eleger um lado como base. Aqui é tratada a ponta direita como sendo a base e a ponta esquerda o prefixo que pode ser permutado. Ao retomar o Quadro 5, os prefixos dissilábicos são, na verdade, radicais que têm posição igual àquela que cabe aos demais tipos de prefixos, mas sua origem é diferente.

Parece que a nomenclatura dada por Bauer (1988), Formas Combinatórias, descreve melhor a realidade de alguns radicais. Não se pode negar que determinadas raízes podem se combinar à direita e à esquerda, “filos” é um bom exemplo, pois pode servir de base para palavras “hemofilia”, “pedofilia”, entre outros, mas também pode ser tomado como prefixo em palavras como “filosofia”, “filantropia”, por exemplo.
Algo que deve ser levado em consideração é o fato de os constituintes dos compostos neoclássicos funcionarem ora como prefixos ora como sufixos e até como base lexical. Uma palavra bastante intrigante é “pseudomorfologia” que seria composto por “pseudo”+“morf”+“log”+“ia”, mas quem é prefixo, sufixo ou base, nessa palavra?

Esse tipo de composto tem, também, a capacidade de se unir a palavras inteiras como se fossem prefixos, mas o tipo de informação que é atribuída é de natureza diferente da maneira que ocorre na prefixação típica. Note que o processo de formação de palavras por splinters é diferente do processo que ocorre com os compostos neoclássicos, já que os primeiros têm relação semântica muito forte com a palavra original, como se vê em “pagonejo”, que é a mistura musical de “pagode” com “sertanejo”, processo esse diferente de “sambódromo”, uma vez que é o “local reservado para dançar samba”.

As GTs trazem os prefixos e sufixos clássicos no capítulo sobre derivação, ao passo que radicais greco-latinos são reunidos na parte que trata da composição, os chamados Compostos Eruditos. A tradição não dá um tratamento diferenciado para esse tipo de composto, os compostos neoclássicos são, por vezes distribuídos pela derivação e pela composição, e, a depender do resultado final, a nova palavra pode ser classificada como derivação prefixal ou derivação sufixal, ou até mesmo, derivação parassintética, mas também poderia classifica-la como composição.

Podemos destacar as principais características dos compostos neoclássicos como processo diferenciado:
Lexamaticidade na língua de origem (Petropoulou, 2009): originalmente, em latim ou grego, a maioria dos termos, hoje utilizados, eram lexemas livres, podiam receber marcas flexionais variadas, como qualquer outra forma livre. Hoje são consideradas “formas sem livre-curso”.

Ausência de realização sintática na língua-alvo (Ralli, 2010): em situações “normais”, esses fragmentos não têm autonomia sintática ou semântica.

Tipo de vocabulário que formam (Bauer, 1988): essas formas complexas pertencem a um vocabulário formalmente aprendido, não são coloquialmente formadas e seus usos ficam restritos a campos científicos ou técnicos.

Tipo de significado que atualizam (Ralli, 2010): a significação acionada pelos sufixos, por exemplo, é diferente daquela acionada por radicais clássicos, se podemos chamá-los assim, Ralli (op. Cit.) discorre sobreo assunto da seguinte forma: carregam um significado concreto, em comparação com os sufixos que têm papel mais funcional (categorial ou relacional), ou possuem significado mais abstrato, […] mais como morfemas lexicais que como morfemas gramaticais.

Presença de uma vogal de ligação entre os componentes (Corbin, 2001): não é raro ver uma vogal de ligação entre os radicais clássicos na palavra complexa, de um modo geral, -i- é empregado em formas de origem latina, e -o-, nas formas oriundas do grego. Quando observamos as fronteira morfológicas, temos a presença dessa vogal de ligação entre a consoante final do primeiro termo com a primeira consoante do segundo termo, evitando, também, um encontro consonantal indesejável.

De posse das informações supracitadas, o que vemos, de modo geral, é a possibilidade de encaixarmos as raízes doublets, conforme Joseph (1998) e Gonçalves (2005), no Quadro 5, pois elas funcionam como formas presas, mas também como formas livres, i.e. vocábulos independentes. Mesmo sendo uma língua neolatina, o Português tem mais radicais gregos como prefixos do que radicais latinos e, proporcionalmente, vemos essa mesma situação na ponta direita, a quantidade de radicais gregos é superior aos latinos quando se fala de sufixos.

Clipagem

A pesar do nome, o processo de “clipagem”, do inglês clipping, é muito produtivo na Língua Portuguesa, em especial no PB, quando tratamos dos compostos neoclássicos. Enquanto que o uso completo e a formação de palavras com radicais clássicos, na fala coloquial há redução por motivos diversos, tamanho da palavra, dificuldades fonéticas.

O processo de truncamento de palavras é mais comum na primeira posição e raramente aparece na segunda posição. O clipping se dá pelo fato de o ouvinte “subentender” a palavra completa mediante um pedaço da mesma. Ao dizer eletro, no contexto adequado, o interlocutor tem acesso imediato ao tipo de exame, se é eletrocardiograma ou eletroencefalograma, mas dificilmente acessará eletrochoque.

A essas formas, quando recompostas admitem, não só adição de morfemas, como os de número e diminutivo, por exemplo, como também se relacionam com formas livres como se fossem prefixos. Em especial, “tele-” tem duas possibilidades de acionamento, “televisão” ou “telefone”, que geram “telenovela”, “teleatendimento”, respectivamente, processo diferente de “telegrama”, que tem sua relação com o sentido “à distância” originalmente pertinente ao termo “tele”.

Quando são radicais e quando são afixos?

Pode parecer confuso o fato de uma determinada entidade se comportar ora como radical ora como afixo, mas Kastovsky (2009) apresentou uma série de condições que permitem distinguir um tipo do outro. Admitindo a “expansão de inventários”, deve-se admitir que os afixos têm pouca flexibilidade para adotar novos elementos, ao passo que as formas combinatórias tendem a admitir com mais facilidade um conjunto maior de participantes. O próprio Kastovsky reconhece que esse argumento não é muito preciso, principalmente por ser possível contestar tal observação do ponto de vista diacrônico quando se verifica a possibilidade expansão, por empréstimos ou alterações lexicais de vocábulos independentes, dos afixos em determinadas línguas.

Em relação à forma dos afixos e das formas combinatórias, estas tendem, a depender da análise dada, podem terminar ou começar num mesmo segmento da palavra, os afixos se apresentam, de modo geral, formas fonéticas diferentes, mas essa diferenciação não é passível de contestação, Gonçalves (2011) sugere que essa distinção não pode ser tomada como unânime, já que alguns afixos têm características das formas combinatórias, e vice versa.

No que se refere às restrições de coocorrência, poder-se-á dizer que, nesse quesito, o comportamento de ambas as formas é unir-se a formas livres e, também, a formas presas. Aliado a isso, ambas as formas têm função sintática marcada, e a relação cabeça-modificador dos termos é expressa, também, nos dois tipos. Nesse sentido, mais uma vez, temos um ponto de convergência de interpretação para tais formadores, sem haver muita distinção entre eles nesse aspecto.

A natureza do significado de um ou outro formador é definida pela densidade semântica que há no tipo da categoria. Tradicionalmente, radicais são considerados mais densos semanticamente que afixos. Nessa mesma linha, Gonçalves (2011) indica que essa diferença de densidade pode ser aplicada também para relacionar prefixos e sufixos, mas não há tanta diferença quando comparamos as formas combinatórias com sufixos, pois suas densidades seriam semelhantes, isto é, a carga semântica da posição à direita é menor do que à esquerda.

Afixos tendem a serem padronizados, morfologicamente, essa padronização por vezes se dá de forma automática, compulsória e modelada de palavras derivadas (GONÇALVES, 2011, p. 29). Em decorrência dos padrões citados, a produtividade no PB é elevada, uma vez que formas combinatórias e afixos têm mesmo padrão em posição final, comportando-se como sufixos padronizados e, assim, sua produção não fica restrita aos modelos técnico-científicos como a tradição costuma encerrar.

Conclusão sobre a Formação de Palavras

O estudo da formação de palavras em Língua Portuguesa merece especial atenção por ter mais de uma possibilidade de análise acerca de compreender melhor os componentes da palavra complexa e as informações semânticas pertinentes a cada participante que mais evidenciam-se no resultado após a união.

As descrições tradicionais não dão conta de todas as possibilidades de arranjo das formas aqui descritas, reduzindo-se a dividi-las em duas grandes categorias: Derivação e Composição. Como tais classificações fossem impermeáveis e sem características comuns, o tratamento tradicional não prevê a possibilidade de um continuum entre os processos tidos derivacionais e os processos tidos composicionais.

Há entidades linguísticas, a saber, os radicais clássicos, que se comportam de forma diferenciada por diversos motivos: origem, características estruturais na língua original, configuração morfofonêmica na língua destino, possibilidade de encaixamento numa ou noutra ponta da base, preservação do traço semântico, densidade semântica, entre outros.

As muitas formas de descrição e de abordagens, só reforçam o quão complexo e rico é o processo de formação de novos vocábulos, que, para alguns autores, evidenciam a capacidade de o falante poder criar palavras a partir de estruturas já existentes.

Formação de Palavras – Referências bibliográficas

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