Construções de Desejo – Linguística Cognitiva

Este artigo trata das construções de desejo no português, especificamente aquelas utilizadas no português do Brasil. O meu foco é a Linguística Cognitiva, posteriormente escreverei sobre outros assuntos referentes a outras correntes linguísticas. O foco principal deste post é a Construção Gramatical, não só a observância dos elementos constituintes da frase. Este artigo pretende apresentar, de forma sucinta, alguns dados e conclusões que constam nos trabalhos devidamente referenciados no final desta exposição.

Construções de Desejo: Características Gerais

Precisamos estabelecer o que é uma Construção. Para Langacker (1987), a Construção Gramatical é o resultado da interação de dois polos, o semântico e o fonológico, de determinado vocábulo. Esse emparelhamento indissociável produz o que ele chama de Estrutura Simbólica. Essa estrutura carrega apenas um significado e apenas uma forma. Para ele, outras estruturas simbólicas podem ser associadas. Nesse entendimento, não há soma de significados ou de formas, o que ocorre é a interação entre as Estruturas Simbólicas. A partir dessa interação surge um novo significado sobre uma nova estrutura fonológica.

Construções de Desejo: Querer e Desejar

Almeida (2008) chama a atenção para o fato de haver dois verbos que seriam os maiores representantes da expressão de desejo, os verbos “querer” e “desejar”. Porém, os verbos “estimar” e “esperar” também podem ser utilizados em construções de desejo, ela também considera um caso especial da interjeição “tomara”.

Primeiro a autora partiu do verbo “querer”, como base para as construções volitivas, e depois identificou as estruturas semanticamente associadas ao desejo. Após uma análise sintática e semântica de orações contendo o verbo “querer” a autora chega à seguinte conclusão:

Análise preliminar indica, portanto, que “querer” é sempre transitivo e o objeto direto pode ser simples ou em forma de oração, finita ou infinitiva.
Em outras palavras, constata-se que as construções que expressam desejo envolvem crucialmente dois aspectos: a questão da transitividade e a das estruturas de controle. (p. 147)

Analisando a transitividade das construções de desejo, Almeida (2008) percebeu que o comportamento semântico dos sujeitos e dos verbos era consistente em todos os casos analisados e isso indicaria a existência de uma macroconstrução que instancia o desejo. Essa construção maior é uma construção transitiva com algumas propriedades específicas, porém a outras construções derivadas da macro que possuem particularidades que traria diferenças sutis entre cada estrutura.

Ver também

Linguística

O que é Papel Temático?

Gilles Fauconnier – Linguista

Domínios Conceptuais – Linguística Cognitiva

Construções de Desejo: Questões de Controle

Recomendo uma leitura de Almeida (2008) com muita atenção. Vou passar alguns comentários que acho interessante sobre esse trecho. O assunto não é difícil, mas requer cuidado.

Langacker (2007) propôs alguns aspectos semânticos-sintáticos a serem avaliados em orações de controle (principal), a partir do ponto de vista do sujeito cognitivo, da maneira como esse sujeito conceptualiza e realiza linguisticamente o evento representado na oração encaixada (subordinada).

No âmbito sintático, testou-se o tempo da oração subordinada e constatou-se que poderia ocorrer em tempo finito (verbo desenvolvido) ou infinito (nominal/infinitivo). Do ponto de vista semântico, o controle exercido pela oração
principal poderia ser ou efetivo ou epistêmico. Assim, o controle efetivo “especifica o participante central no evento complementar”; já o controle epistêmico “especifica o conceptualizador da proposição complemento” (ALMEIDA, 2008, p. 149).

Gradação do Controle Efetivo

Potencial < Inclinação < Intenção < Decisão < Preparação < Execução < Resultado

Potencial – “Ela ensinou Maria a cozinhar.”

Inclinação – “Ele sabia como preparar um pudim.”

Intenção – “João persuadiu Maria a preparar o jantar.”

Decisão – “Ele resolveu preparar o jantar.”

Preparação – “Ele se esforça para assar a carne.”

Execução – “Ele tentou cozinhar a carne.”

Resultado – “Ele conseguiu assar a carne.”

Gradação do Controle Epistêmico

Potencial < Inclinação < Projeção < Execução < Resultado

Potencial – “As crianças podem ficar desapontadas.”

Inclinação – “As crianças parecem estar desapontadas.”

Projeção – “As crianças indicam estar desapontadas.”

Execução – “As crianças começam a ficar desapontadas.”

Resultado – “As crianças demonstram estar desapontadas.”

Você deve estar pensando: “O que que isso tem a ver com construções de desejo?”

Na pesquisa de Almeida (2008), ficou evidente que orações finitas epistêmicas apresentaram, apenas para o verbo “querer”, os seguintes resultados:

Oração finita: EPISTÊMICAS

“Eu quero [que ele me traga um relatório completo].” (projeção)

“Quero [que os dois saiam daqui].” (projeção)

“Apesar do que aconteceu, ela não quis [que eu ficasse por perto].” (projeção)

Oração infinitiva: EFETIVAS

“Pare o mundo que eu quero [descer].” (decisão)

“Ainda não encontrei mulher com quem quisesse [ter filhos].” (inclinação)

“Não houve quem quisesse [usar a palavra].” (potencial)

“Queria [ter uma camisa do Vasco nova!].” (intenção)

“Quero [que vc fique contente].” (potencial)

“Gostar de mulher é querer [fazer a mulher feliz]” (Infinitivo). (decisão)

Assim, Almeida (2008) afirma que:

A aplicação desses parâmetros mostrou que, ratificando a proposta de Langacker, quando a encaixada é infinitiva, o sujeito cognitivo atribui status de real ao evento. (p. 151)

Ela conclui da seguinte maneira:

Emerge da análise, entretanto, que há diferenças no grau de produtividade e especificidades entre as diferentes construções. Mas isso fica para ser verificado futuramente. (p. 154)

Reparou que ela não trata da interjeição “Tomara”? Esse foi o gancho que utilizei para direcionar minha pesquisa no mestrado. Posteriormente trarei algumas informações sobre minha pesquisa concluída em 2017.

Peço que sejam feitas as leituras dos artigos citados, links abaixo, pois o presente artigo é uma síntese do que é aprofundado no artigo e no livro citados.

Referência:

ALMEIDA, Maria Lucia Leitão de. As construções de desejo em português. Rev. Est. Ling., Belo Horizonte, v. 16, n. 1, jan./jun. 2008, p. 141-156. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/relin/article/viewFile/2483/2435

LANGACKER, R. Foundations of Cognitive Grammar. v.1. California: Stanford University Press, 1987.

 

Veja também:

GRAMÁTICA

TRABALHOS ACADÊMICOS

LÍNGUAS


One thought to “Construções de Desejo – Linguística Cognitiva”

  1. Professor Paulo, parabéns pelo excelente Blog!

    Permita-me uma questão (mas talvez seja falha do meu navegador): há grandes espaços “em branco”, e a gente fica sem saber se havia algum conteúdo que está visível. Por exemplo, no tópico “Construções de Desejo: Querer e Desejar”, o segundo parágrafo termina por 2 pontos (:). Em seguida há um grande espaço em branco. Pensei que no espaço, talvez exista uma imagem ou mesmo um texto explicativo, pois o final do parágrafo anuncia uma conclusão.

    Obrigada

    Mariana Estevam

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