Quem detém a interpretação de um texto?

Todos os concursos públicos trazem questões de interpretação de um texto ou mais em seus concursos de admissão. Sempre tem um que diz: “interpretação de texto é difícil” ou “a pior parte da prova é a de interpretação textual”. Mas há apenas uma única interpretação para um mesmo texto? O cantor Nando Reis está envolvido num caso parecido com o que vamos discutir neste artigo.

Há necessidade de cobrar a interpretação de um texto em provas?

A redação dissertativo-argumentativa é eficiente para avaliar a capacidade de estruturação do pensamento dos candidatos. Porém, há outras formas de saber se o candidato tem boa capacidade de interpretação textual. Vejamos o caso da prova do IBGE, organizado pela FGV.



Texto 2 – “Maior confronto armado da história da América do Sul, a Guerra do Paraguai é uma página desbotada na memória do povo brasileiro. Passados quase 150 anos das últimas batalhas deste conflito sangrento que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, o tema se apequenou nos livros didáticos e se restringiu às discussões acadêmicas. Neste livro, fruto de pesquisas históricas rigorosas, mas escrito com o ritmo de uma grande reportagem, o leitor poderá se transportar para o palco dos acontecimentos e acompanhar de perto a grande e trágica aventura que deixou marcas profundas no continente sulamericano e lembranças de momentos difíceis”. (adaptado – A Guerra do Paraguai, Luiz Octávio de Lima)

7
Ao dizer que a Guerra do Paraguai é uma página desbotada na
memória do povo brasileiro, o autor do texto 2 quer afirmar que
essa guerra:
(A) não quer ser mais lembrada pelo povo brasileiro;
(B) deve ser esquecida por todos os que dela participaram;
(C) foi modificada pela atual discussão de ideologias;
(D) traz remorsos à nossa memória histórica;
(E) é pouco conhecida e discutida no presente.

Quem é que garante que o gabarito não pode ser a opção D, ou a opção A? Quem teria mais autoridade para dizer o que “o autor do texto 2 quer afirmar”? Seria o próprio autor ou a banca?

O caso de interpretação de um texto de Nando Reis

O dia 14/12/2017 ficará marcado na memória de quem elaborou a prova de Auxiliar em Administração, do concurso público da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como um dos piores dias de todos. Na imagem a seguir, há uma série de problemas que podem comprometer o gabarito final. Vejam o texto em questão e parte da prova.


interpretação de um texto
Prova de língua portuguesa de concurso da UFRJ (Foto: Reprodução) – Disponível no site: <g1.globo.com/educacao>. Acesso em: 14/12/2017.

Parece que a Banca tem a outorga de responder pelo autor, o cantor Nando Reis, e interfere no texto sem indicar que houve adaptações. Vou-me ater à Questão 8, pra mim, o caso mais grave.

O enunciado já começa errado, “Em ‘Vou te encontrar… vou te encontrar’ o emprego das reticências indica”. Segundo o Aulete Digital:

(re.ti.cên.ci:as)

sfpl.

1. Gram. Sinal (…) us. na escrita para marcar interrupção do raciocínio, supressão de informações, insinuação etc. [Tb. pontos de reticência]

[F.: Pl. de reticência. Hom./par.: reticências (sfpl.), reticencias (fl. de reticenciar).]

O Dicionário Aurélio, em sua versão eletrônica, registra o seguinte:

Publicado em: 2016-09-24, revisado em: 2017-02-27. Disponível em: ‹https://dicionariodoaurelio.com/reticencias›. Acesso em: 15 Dec. 2017

Logo, precisamos estritamente da canção inteira para saber o real sentido dessa pontuação específica. Mas isso também pode ser resolvido indagando o autor.

Já indicando que discorda da interpretação da Banca, indicando outra opção como a correta, o cantor alega, em conversa pelo Twitter com um dos candidatos, que essas reticências não constam no original.

E agora? Quem sabe mais, a Banca ou o Autor?

Veja mais em

Quando uma revisão fez falta

Quando falta um Objeto Direto



Deixe uma resposta